google.com, pub-7650629177340525, DIRECT, f08c47fec0942fa0 Notícias da Turquia

15 junho 2013

Polícia turca expulsou os manifestantes de Gezi

Está terminado. No parque Gezi, em lugar dos manifestantes, polícias sentam-se à porta das tendas, fumam cigarros juntos às bancas anarquistas. Não passaram mais de duas horas, desde o momento em que a força de intervenção começou o ataque e aquele em que todos os ocupantes tinham fugido. Às 11 horas da noite toda a área estava cercada, todos os acessos bloqueados. A zona de Taksim estava coberta de fumo e de silêncio. Ouvia-se apenas o som de sirenes de ambulâncias ao longe.
A polícia de intervenção lançou o ataque cerca das 9 da noite, disparando canhões de água e granadas de gás lacrimogéneo, lançando em fuga e pânico os milhares de manifestantes. De forma lenta e sistemática, avançou por entre o arvoredo, tendas e toda a “mobília” que os manifestantes deixaram para trás, após duas semanas de ocupação do parque.
O alarme foi dado às 8 da noite. Correu célere entre os manifestantes que ocupavam o parque Gezi. “Os polícias estão a levantar-se”, disseram. “Estão a preparar-se para atacar”. Os planos de emergência começaram imediatamente a ser colocados em prática. As máscaras anti-gás foram colocadas, abertos os corredores de segurança. Os vendedores de equipamento anti-gás lacrimogéneo despachavam freneticamente as últimas bugigangas.
“É falso alarme”, disse Cenolut, de 34 anos, sem colocar a máscara. “O primeiro-ministro, Erdoğan, disse num comício que limparia o parque amanhã. Portanto será amanhã, não hoje. E amanhã já não estará aqui quase ninguém”.
Muitos manifestantes estavam convencidos disto e preparavam-se para abandonar o parque amanhã, domingo.
Consideravam que a mensagem tinha sido ouvida e a sua missão cumprida. Tiveram uma surpresa.
O ataque da polícia começou pouco antes das 9 horas. Os jactos de água dos veículos blindados Toma deram o sinal. Granadas de gás foram lançadas para o interior do parque. Centenas de polícias avançaram pela praça Taksim, em direcção ao parque, como não tinham feito no ataque anterior.
Tudo se encheu de fumo, ouviram-se muitas explosões e tiros. A multidão desatou a correr em direcção ao outro extremo do parque. As granadas rebentavam junto aos seus pés. A concentração de gás pimenta tornou-se intensa, o ar irrespirável. Muitos manifestantes precisaram de assistência, outros tombaram no chão.
“Veja o que está a acontecer! Veja isto!”, gritou Yeliz, 34 anos, uma gestora de produto numa empresa privada que nos tinha dito que abandonaria o parque amanhã. “Escreva isto! Escreva! Tenho vergonha do que está a acontecer no meu país”. E desapareceu na multidão, aos tropeções.
No extremo norte do parque Gezi, os manifestantes em fuga descobriram que a polícia tinha já também tomado posições nas ruas confluentes. Os agentes envergavam os capacetes e escudos mas mantinham-se imóveis. Muitos manifestantes passaram por eles, uns aos gritos, outros entoando slogans. Os polícias deixaram-nos passar. O objectivo era esse.
Em vários pontos dos arredores de Taksim, activistas montaram barricadas, para continuar a resistência à polícia. Atiram pedras e disparam fisgas, ao que a polícia responde com gás lacrimogéneo. Toda esta zona da cidade está envolvida numa nuvem de gás tóxico.
A resistência dos activistas não tem, porém, a dimensão da que opuseram na última intervenção da polícia, terça-feira, dia 11. Nessa altura, as forças policiais ocuparam a praça Taksim, mas deixaram incólume a “zona livre” de Gezi. E era daí, do interior do parque, que chegavam as armas e os reforços para combater a polícia.
Desta vez, o parque foi evacuado, todas as ruas previamente cortadas. Sem espaço nem apoio, nenhum foco de resistência dura muito tempo.
É impossível entrar agora no parque, sob controlo da polícia. Mas segundo os testemunhos de vários activistas, a intervenção deixou muitas pessoas feridas, incluindo idosos e crianças. Os que não resistiram ao gás e às balas de borracha e ficaram em Gezi foram levados para ambulâncias, que estavam já à espera, guardadas pela polícia.
Outros feridos refugiaram-se num hotel situado no extremo norte do parque, o Hotel Divan, que abriu as portas para auxiliar os manifestantes. A polícia cercou o hotel, não permitindo entrar nem sair, mas, segundo manifestantes que estiveram lá, não entrou nem tentou deter quem ali se refugiou.
 
(Fonte: Público)

Cavaco Silva diz que confrontos na Turquia não favorecem adesão à União Europeia

O Presidente da República, Cavaco Silva, afirmou hoje que os confrontos na Turquia não favorecem "alguns capítulos que estão sobre a mesa" no processo de adesão do país à União Europeia.
"Temos de lamentar o que aconteceu nos últimos dias na Turquia, a violência da polícia em relação aos manifestantes", disse o chefe de Estado português, numa entrevista à Sic Notícias, divulgada hoje, no âmbito da sua visita esta semana ao Parlamento Europeu.
Questionado sobre os confrontos na Turquia, Aníbal Cavaco Silva elogiou as "palavras bastante sensatas" do Presidente da República da Turquia, Abdullah Gül, que disse ser "um elemento moderador", e sublinhou a importância estratégica daquele país.
"É uma ponte entre dois continentes, tem uma influência muito grande na Ásia Central, sobre o Irão e os países envolvidos no processo de paz do Médio Oriente, em países do Cáucaso e é uma possível potência económica daquela área", declarou.
No entanto, referindo-se ao processo de adesão à União Europeia, o Presidente português considerou que "negociações são negociações".
"Há que respeitar os valores e os princípios e ajustar as políticas da Turquia às políticas comuns da Europa. Portugal apoia a adesão da Turquia, reconheço que as negociações são difíceis e que aquilo que aconteceu nos últimos dias não deve ter favorecido alguns capítulos que estão sobre a mesa ou que se pensava que podiam estar sobre a mesa", disse.
Cavaco Silva reforçou que "há valores e princípios fundamentais que é preciso serem respeitados por todos os que fazem parte desta União Europeia".

(Fonte: SIC Notícias)

"Indignados" asseguram que vão continuar a resistir

Os "indignados" turcos anunciaram hoje que continuarão a "resistência" contra "todo o tipo de injustiças", embora sem especificar se isso significa manter o acampamento no parque Gezi, em Istambul, epicentro dos protestos que sacodem a Turquia há duas semanas. A posição foi divulgada em comunicado, citado pelas agências EFE e AFP.
Segundo fontes da parte dos manifestantes, a maioria dos grupos políticos retirou as suas tendas e manter-se-á apenas uma tenda da rede Solidariedade com Taksim, o movimento que actua como porta-voz dos manifestantes, bem como algumas tendas de activistas ambientalistas.
Os ocupantes do parque Gezi, de onde partiu um movimento de contestação popular sem precedentes na Turquia desde 2002, anunciaram a continuação da luta.
"Hoje somos bem mais fortes, organizados e optimistas do que há 18 dias", quando um pequeno grupo de militantes ecologistas começou a acampar para se opor a um projeto desenvolvido pelas autoridades e que previa a destruição do parque, dizem no comunicado.
O primeiro-ministro turco, Recep Erdoğan, considerou na sexta-feira que a ocupação do parque Gezi em Istambul devia acabar durante a noite, após a promessa aos manifestantes de suspender o polémico projecto urbanístico, e convocou os seus apoiantes para comícios no fim-de-semana.

(Fonte: Lusa/SIC)

12 junho 2013

Quatro televisões da Turquia multadas por transmissão dos protestos

Quatro canais da televisão turca foram multados pela entidade reguladora da rádio e televisão por transmitirem os protestos no parque Gezi e na praça Taksim, em Istambul, noticiou hoje o diário Hürriyet na sua página na internet.
O Conselho Superior da Rádio e Televisão da Turquia (RTUK) indicou ter aplicado as multas porque as emissoras "prejudicaram o desenvolvimento físico, moral e mental das crianças e jovens" ao transmitirem os protestos na zona do parque Gezi.
As televisões multadas são a Halk TV, a Ulusal TV, a Cem TV e a EM TV.
A Halk TV, em particular, registou nos últimos dias picos de audiência por ser a única a transmitir em contínuo, quase sempre em directo, as manifestações que há treze dias se registam em Istambul.
O regulador já tinha advertido antes a Halk TV por emitir um vídeo considerado "humilhante" para o primeiro-ministro turco, Recep Tayyip Erdoğan.
O canal, segundo o Hürriyet, segue uma linha ideológica "kemalista" - relativa ao primeiro presidente da Turquia moderna, Mustafa Kemal Atatürk - e é considerado próximo do Partido Republicano do Povo (oposição).
Os grandes canais de notícias turcos têm sido criticados, sobretudo depois de, no primeiro sábado de manifestações, a CNN-Turquia emitir um documentário sobre pinguins enquanto se registavam violentos confrontos entre a polícia e manifestantes na praça Taksim.
O pequeno canal Ulusal TV, um dos multados, "respondeu" dias mais tarde interrompendo a transmissão em directo de um discurso de Erdoğan para transmitir imagens de pinguins.
Nos últimos dias, e depois das críticas, a cobertura dos protestos tem sido mais frequente e a edição digital do diário Radikal, próximo da oposição, oferece imagens em directo 24 horas da praça Taksim.
A praça, vizinha do parque Gezi, estava hoje de manhã relativamente calma, apesar de ao longo de toda a madrugada se terem registado confrontos entre a polícia e manifestantes.
Um forte dispositivo policial mantinha-se na praça, com os polícias alinhados atrás dos canhões de água estacionados frente a cada uma das ruas adjacentes.
A polícia tomou de assalto na terça-feira de manhã a praça Taksim, onde milhares de manifestantes permaneciam desde 01 de Junho. Os confrontos com a polícia prolongaram-se por várias horas, numa batalha que terminou com dezenas de feridos, alguns em estado grave. Ao princípio da noite, milhares de manifestantes regressaram à praça.
Na capital, Ancara, a polícia interveio na terça-feira à tarde para dispersar cerca de 5.000 pessoas que se manifestavam para exigir a demissão do primeiro-ministro.
Hoje de manhã, a polícia tentava dispersar várias dezenas de manifestantes que se mantinham no parque Kuğulu, no centro de Ancara.
Erdoğan tem previsto receber hoje à tarde (14:00 em Lisboa) uma delegação de duas dezenas de representantes dos manifestantes. No entanto, a lista de representantes estabelecida pelas autoridades é contestada por algumas das organizações ligadas aos protestos, nomeadamente a plataforma de 116, na origem do movimento de protesto em Istambul, que não consta da lista.
Outros movimentos, como a organização ambientalista Greenpeace, recusaram o convite em protesto contra a actuação da polícia na terça-feira e a intransigência de Erdoğan, que na terça-feira voltou a definir os manifestantes como "extremistas" e a recusar qualquer tolerância.
Segundo o mais recente balanço divulgado pelo sindicato dos médicos turcos, a vaga de protesto fez quatro mortos, três manifestantes e um polícia, e perto de 5.000 feridos, várias dezenas dos quais em estado grave.
A vaga de protestos começou depois de, a 31 de Maio, a polícia ter recorrido à força para dispersar uma manifestação contra a construção de um centro comercial no parque Gezi. Essa carga policial desencadeou uma série de grandes manifestações em toda a Turquia exigindo a demissão de Erdoğan, no poder desde 2002.
 
(Fonte: Lusa/ RTP)

Primeiro-ministro diz que protestos acabarão “em 24 horas”

O primeiro-ministro turco, Recep Tayyip Erdoğan, anunciou ter dado ordens ao ministro do Interior para acabar com as manifestações que duram há 12 dias e provocaram quatro mortos: três manifestantes e um polícia.
“Isto estará acabado em 24 horas”, disse Erdoğan, afirmando que as forças de autoridade terão uma actuação diferente do que até aqui, mas que os manifestantes não devem ser magoados.
O governante esteve reunido com 11 representantes dos manifestantes, num encontro que terminou com a possibilidade de um referendo entre os habitantes de Istambul em relação ao destino do parque Gezi.
“O resultado concreto da reunião é o seguinte: podemos levar este assunto a referendo. Não para a Turquia inteira, mas perguntaremos aos cidadãos de Istambul”, resumiu Hüseyin Çelik, porta-voz do partido no poder, o AKP, citado pelo jornal turco de língua inglesa Hurriyet Daily News.
Çelik apelou ao fim dos protestos: “Dirijo-me aos meus jovens irmãos que protestam, dormem, comem e bebem no parque Gezi. Dada esta decisão sobre a possibilidade de um referendo, creio que, depois deste gesto de boa vontade, o parque Gezi deve ser esvaziado e a vida deve voltar ao normal”.
 
(Fonte: Público)

11 junho 2013

Erdoğan acusa manifestantes de golpe de Estado encapuzado

O primeiro-ministro turco acusa os manifestantes da Praça Taksim de prejudicarem “deliberadamente” a imagem e a economia da Turquia.
Recep Tayyip Erdoğan, que discursou perante o grupo parlamentar do seu partido, o AKP, vai mesmo mais longe e acusa-os de tentativa encapuzada de golpe de Estado. “Podem plantar árvores, podem fazer tudo isso, não há obstáculos. Mas apresentar a situação como se houvesse obstáculos à liberdade é uma tentativa de encontrar alternativas ao que não conseguiram fazer nas mesas de voto. As questões ambientais são usadas para diferentes acções, diferentes objectivos e mentalidade, mas também são usadas para disfarçar um levantamento ilegal contra um Governo democraticamente eleito”, afirmou Erdoğan. O discurso de Erdoğan, muito aplaudido pelo seu partido, ocorreu poucas horas depois de a polícia ter desalojado, pela força, os manifestantes que, há cerca de uma semana, assentaram arrais na praça Taksim, em Istambul.
 
(Fonte: Euronews)

08 junho 2013

As manifestações na Turquia no traço de ilustradores portugueses

 
A violência das imagens que passam nas televisões, que se vêem nas redes sociais e nas notícias online; as conversas com os amigos turcos fizeram um colectivo de ilustradores portugueses despertar para o que se está a passar na Turquia por estes dias.
Aquilo que começou por ser um protesto pacífico contra os planos de remodelação do Parque Gezi, no último dia de Maio, transformou-se num protesto diário contra o Governo de Recep Tayyip Erdoğan, em parte devido à intervenção violenta da polícia sobre os manifestantes.
Os canhões de água e o gás pimenta usado para dispersar os manifestantes têm corrido mundo em fotografias que começam a tornar-se simbólicas e que revelam a violência que se vive naquele país, acredita um grupo de ilustradores de Lisboa, Porto e Coimbra que, de forma espontânea e numa semana, expressaram no papel, através da ilustração, os dias que se vivem na Turquia.
O conjunto das ilustrações dos 13 artistas chama-se "Ilustrações para a Turquia: Pelo direito à liberdade, à justiça e à protecção do Estado". O objectivo é manifestar "através do seu trabalho, a solidariedade devida a quem, pondo em risco a própria vida, defende por estes dias na Turquia os direitos da Humanidade", escreve Pedro Rodrigues, porta-voz do colectivo de ilustradores, num texto enviado ao PÚBLICO.
Pedro Rodrigues recorda que os órgãos de comunicação social turcos não passam a informação e ignoram os acontecimentos, recorda que o acesso à Internet e às comunicações móveis foi bloqueado pelo Governo. Por isso, o colectivo criou uma página no Facebook, onde procuram passar informação. É nessa página que estas ilustrações serão publicadas. O próximo passo é editá-las num fanzine. "Queremos usar todos os meios para conseguir a maior divulgação possível, para que as pessoas em Portugal tomem consciência do que se está a passar numa sociedade democrática. É uma questão de direitos humanos, é uma questão universal", explica o porta-voz em entrevista ao PÚBLICO.
"Estes alertas são importantes para não esquecermos o que se passa à nossa volta. Se quisermos pensar em nós [portugueses], o que se está a passar na Turquia é um sinal importante. Trata-se de um Governo legitimamente eleito, em democracia, que assume atitudes de estado autoritário e ditatorial. Isto deve fazer-nos reflectir", conclui Pedro Rodrigues.
 
(Fonte: Público)

07 junho 2013

Erdoğan exige fim “imediato” dos protestos

O primeiro-ministro turco, Recep Tayyip Erdoğan, regressou ao país nas primeiras horas desta sexta-feira e exigiu o fim imediato das manifestações que pedem a sua demissão. “Estes protestos que estão no limite da ilegalidade devem acabar já”, disse Erdoğan, citado pela BBC, no aeroporto de Istambul. O primeiro-ministro turco foi ainda mais longe, segundo a AFP, e afirmou que os protestos “perderam o seu carácter democrático” e cederam “ao vandalismo”. Recebido por milhares de apoiantes no aeroporto – que gritavam “Estamos prontos para morrer por ti, Tayyip" ou "Vamos lá esmagá-los todos” –, Erdoğan apelou à calma e ao bom senso. “Vão para casa pacificamente”, pediu o chefe de Governo. A recepção a Erdoğan, que esteve de visita a países do Magrebe, é a primeira manifestação de apoio ao primeiro-ministro, desde o início dos protestos há uma semana. Enquanto o primeiro-ministro regressava a casa, prosseguiam as manifestações, especialmente na Praça Taksim, em Istambul, local que esteve na origem do protesto – ali ao lado o Parque Gezi dará lugar a um centro comercial numa recriação de uma caserna militar otomana. Antes de regressar a Istambul, Erdogan já tinha dito em Tunes que não recuará nos seus planos de construir a caserna e que as manifestações são feitas por uma minoria, em que estão terroristas.
 
(Fonte: Público)

06 junho 2013

Há Portugueses a desenhar nos protestos de Istambul



Chegou à Turquia a 30 de Maio, um dia antes da onda de protestos ter rebentado, em Istambul. Luís Simões está a fazer uma viagem pelo mundo, a World Sketching Tour, e ficou surpreendido com o que viu na praça Taksim, naquela cidade. “Pelas artérias até Taksim havia muitas pessoas, ouviam-se gritos, alguns turistas bebiam cervejas tranquilamente, inconscientes do que se passava”, relata.

O que se passava era uma das várias manifestações na cidade turca. Começaram por ser contra a decisão de construção de um centro comercial no parque Gezi — um acampamento pacífico — e evoluíram para demonstrações de descontentamento com o governo de Recep Tayyip Erdoğan.

“A violência da carga policial da madrugada de 31 de Maio, recorrendo a gás-pimenta [sobre o acampamento pacífico], levou a que milhares se juntassem durante o dia para protestar contra a actuação da polícia”, relata Pedro Fernandes, a viver em Istambul desde 2012, junto a Taksim. “Decidi fazer a cobertura desenhada do que se passava para registo futuro e para partilhar com a comunidade de desenhadores Urban Sketchers.”

“O cenário de guerra está montado entre Taksim e Beşiktaş e todas as noites existem manifestações grandes nessa zona, assim como pequenos movimentos por toda a parte em Istambul”, diz Luís. Os dois portugueses — um recém-chegado, o outro já habituado à cidade — estiveram juntos a desenhar, após os confrontos com a polícia, no bairro de Beşiktaş, e ainda sofreram as consequências do gás-pimenta.

Para Luís foi “impressionante” poder registar, no papel, o que acontecia. “A minha mão tremia muito e foi difícil estar concentrado [...] Havia o medo de que a polícia voltasse a atacar a praça e corria o perigo de ficar ali preso”, descreve. “A verdade é que ainda não consegui digerir bem tudo o que está a acontecer e sempre que olho para o desenho fico incomodado.”

Um domingo (quase) normal em Gezi
Depois de sexta-feira e sábado (31 de Maio e 1 de Junho, respectivamente) terem sido dias agitados, Pedro decidiu passar pelo Parque Gezi — cuja hipótese de destruição despoletou os protestos — “para ver como estavam as coisas”, no domingo. “O ambiente era ‘piqueniqueiro’, muitas famílias tinham trazido as crianças para brincar no parque infantil”, retrata.

Enquanto isso, em Taksim, “jaziam carcaças de automóveis” e as pessoas “passavam em frente das retro-escavadoras esventradas”. “Tentei desenhar o enorme aparato policial em Beşiktaş, mas sempre com bastante prudência e discrição. Houve tantas detenções e espancamentos aleatórios nestes últimos dias... — e eu nenhuma vontade tinha em fazer parte dessa estatística”, confessa Pedro.

A reacção de quem passa e vê pessoas a desenhar “varia muito”: muitos acham “curioso” e param para olhar, outros fotografam, refere Pedro. Há quem tente conversar num misto de “turco inglês e até alemão” e quem “peça desculpa pela actuação da polícia”. Uma perguntou-lhe, ao saber que era estrangeiro, se teve medo. “Só da polícia”, respondeu.

Neste momento, diz, vive-se um impasse. “O primeiro-ministro recusa demitir-se, rejeita o recuo na construção do empreendimento de Taksim e acusa os manifestantes de serem anti-democráticos e estarem a ser manipulados pela oposição”, esclarece. Os manifestantes mantêm o cerco ao palácio de Dolmabahçe e as manifestações continuam em várias cidades turcas — as mais violentas em Istambul e Ancara.
 
(Fonte: Público)

05 junho 2013

Concentração em Lisboa solidária com protestos

Um grupo de percussionistas marcou nesta quarta-feira o ritmo de uma concentração frente à embaixada da Turquia em Lisboa sob o lema “Somos Todos Turcos”, em solidariedade com a “heróica luta e resistência do povo da Turquia”.
Cerca de 100 pessoas, sobretudo jovens e onde se incluíam diversos estudantes turcos, responderam ao fim da tarde ao apelo da Plataforma 15 de Outubro, que mobilizou o protesto através das redes sociais.
Na Avenida das Descobertas, onde se concentram diversas embaixadas, um grupo de polícias observava junto à representação turca a concentração que decorria no lado oposto da alameda, e onde se exibiam bandeiras turcas e numerosos cartazes, alguns a apelaram aos condutores para buzinarem em sinal de solidariedade.
“Apitem por Istambul”, era um dos placares exibidos por uma efusiva manifestante com um longo vestido vermelho com o crescente branco da bandeira turca, num incentivo aos condutores. Muitos aceitaram o desafio.
“Dayanisma/Solidariedade”, “A Liberdade é Laica”, “Parem a violência contra a democracia”, “Fim à censura dos media. Fim dos ataques à democracia”, os dois últimos cartazes escritos em inglês, dançavam ao ritmo dos batuques os percussionistas, com o ritmo imposto por um jovem com apito.
“O objectivo é demonstrar solidariedade (…) também estamos contra o nosso Governo tal como eles estão, e vimos prestar solidariedade, temos esse ponto em comum. Enquanto o povo turco estiver na rua a lutar heroicamente e com coragem pelos seus direitos será um exemplo para nós, e queremos mostrar-lhes que estamos solidários ”, disse à Lusa Sofia Rajado, da Plataforma 15 de Outubro. “Na sexta-feira há outro acto de solidariedade aqui, e também estaremos presentes”, acrescentou.
A concentração ocorreu seis dias após o início dos confrontos no Parque Gezi, perto da Praça Taskim em Istambul, na sequência da mobilização de diversos grupos da sociedade civil contra um controverso plano urbanístico.
De imediato, e após a violenta intervenção policial que provocou dezenas de feridos, o protesto ganhou uma dimensão política e com dimensão nacional contra o Governo do primeiro-ministro Recep Tayyip Erdoğan, que desde 2002 lidera um Executivo islamita-conservador.
“Todos os que conheço, a minha família, namorada, amigos estão na resistência, a resistir à violência da polícia, e todos os dias são gaseados pela polícia. Estamos aqui para fazer parar esta violência da polícia e as políticas de Erdoğan”, refere com convicção Ozhan, 25 anos e que frequenta um doutoramento na Fundação Gulbenkian.
“Os protestos decorrem em todas as cidades da Turquia, são milhões em todas as ruas, mas os principais media turcos ignoram-nos. Não mostram nada, apenas belos documentários num belo contexto, enquanto milhões de pessoas estão nas ruas”, denuncia.
Ozhan recusa que a Turquia esteja agora fracturada em dois campos opostos. “São pessoas que procuram a sua liberdade, os direitos democráticos, os direitos humanos básicos, como a liberdade de expressão”, assegura.
“Não podemos falar em eleições livres se não existirem media livres no país. É verdade que Erdoğan foi eleito por 50% dos eleitores, mas isso não lhe dá o direito de oprimir a outra metade do povo. Este movimento começou contra a destruição de árvores no parque, começou verde mas agora tem todas as cores”, frisou.
Essa perspectiva era partilhada por Ali, 32 anos, que frequenta um doutoramento no Instituto Champalimaud. Natural de Ancara, considera que a repressão vai agora acentuar na capital turca.
“Existe a preocupação de que o Parlamento ou a presidência sejam atacados, mas a questão tem a ver com democracia, com escutar a opinião dos outros, porque vivemos todos no mesmo país”, declarou.
 
(Fonte: Público)