google.com, pub-7650629177340525, DIRECT, f08c47fec0942fa0 Notícias da Turquia: Opiniões
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11 fevereiro 2023

Sismo: "Uma demonstração de solidariedade da Humanidade"

Um dos mais poderosos sismos do século, com magnitude de 7.7, ocorreu na província turca de Kahramanmaraş nas primeiras horas do dia 6 de fevereiro. Cerca de 700 réplicas reverberaram por toda a região após o sismo inicial e uma vasta área de 10 províncias na Turquia, assim como na Síria, estão severamente afetadas. Só na Turquia já ceifou perto de 20 mil vidas e o número continua a aumentar à medida que os esforços de resgate continuam. Cerca de 70 mil pessoas encontram-se feridas. Os socorristas estão numa corrida contra o tempo e um clima adverso para salvar crianças, homens e mulheres que se encontram debaixo dos escombros. Mais de 6 mil edifícios ruíram. Existe um profundo pesar misturado com esperança.

Enquanto enviamos as nossas sentidas condolências às famílias das vítimas e desejamos rápidas melhoras a todos os que se encontram feridos, o que este devastador sismo nos lembra a todos uma e outra vez é o quão vulneráveis somos enquanto seres humanos face a desastres de larga escala, e o quão significativo é poder demonstrar a solidariedade humanitária nas horas mais negras.

Para além dos intensos esforços governamentais e da sociedade civil da Turquia, tendo enviado para o local mais de 60 mil operacionais, que estão ativos nos esforços de socorro, mais de 5 mil membros de equipas internacionais de busca e salvamento de todo o Mundo estão também presentes na zona do terramoto em resposta ao nosso apelo, a avaliar necessidades, a prestar assistência. A UE anunciou que mais de 30 equipas médicas e de busca e salvamento foram mobilizadas por parte de 20 países, incluindo mais de 1.200 elementos e 70 cães de busca. Uma Força Operacional Conjunta portuguesa com 53 pessoas, acompanhadas de equipamento e cães, partiu para a Turquia no dia 8 de fevereiro, numa missão de busca e salvamento. ONGs de Portugal enviaram equipas de busca e salvamento. Agradecemos a resposta imediata e estamos gratos pelo apoio e solidariedade demonstrados pela comunidade internacional.

Pessoas de todo o mundo também uniram as suas mãos para ajudar pessoas que foram resgatadas do terramoto. Estão a ser enviadas doações em géneros para os centros de crise na Turquia para serem distribuídas pelas pessoas necessitadas. A ONU e ONGs estão mobilizadas para ajudar. A autoridade oficial da Turquia para a gestão de desastres e emergência, a AFAD, o Türk Kızılay, sendo a maior organização humanitária na Turquia e parte da Cruz Vermelha Internacional e do Crescente Vermelho, estão a receber e a transferir estas doações.

Apelamos à comunidade internacional para ajudar milhares de famílias atingidas por este desastre, especialmente aqueles que se encontram em áreas onde o acesso é um desafio por vários motivos. Estamos a receber doações em géneros na Embaixada turca em Lisboa e no nosso centro de recolha no Porto, e também através de transferências bancárias. Poderá encontrar toda a informação nas páginas de Facebook e Twitter da Embaixada. Agradecemos ao Governo e ao povo português pelo sentido interesse e caloroso apoio.

Agradecemos também o apelo à sociedade internacional por parte do secretário-geral da ONU, António Guterres, para que se erga pelos povos turco e sírio, reconhecendo a Turquia como um país que generosamente recebeu e protegeu milhões de refugiados e pessoas deslocadas.

A Turquia está também a facilitar a passagem de ajuda para a Síria de forma a ajudar as pessoas afetadas pelo terramoto. Seis caravanas com ajuda da ONU atravessaram a fronteira da Turquia para a Síria no dia 9 de fevereiro, a primeira ajuda internacional que aquelas pessoas tiveram.

Desastres acontecem em todo o mundo, do Japão ao Chile, de Itália ao Haiti, causando sofrimento sob várias formas e magnitudes. O importante no dia seguinte é como nos unimos ao estender uma mão amiga para curar as feridas das pessoas afetadas. Dar uma mão para o salvamento, fazer um contacto visual com a esperança, lembrando-nos da razão pela qual nós, humanos, existimos no mundo. Hoje, é por isso que o povo turco está grato.

Embora nos sintamos gratos pelo apoio demonstrado pela humanidade, apelo humildemente às vossas orações por aqueles que ainda esperam por um salvamento.

Lale Ülker, Embaixadora da Turquia em Portugal

(Fonte: DN)

05 março 2020

Portugal condena Turquia por "utilização abusiva" de refugiados

O Governo português condenou a "utilização abusiva" de refugiados por parte da Turquia na intenção de abrir fronteiras para pressionar a União Europeia, mas afastou uma intervenção militar comunitária como forma de resposta.

Neste momento, há uma utilização abusiva, por parte da Turquia, da presença no seu território de vários milhões de migrantes e, claramente, o presidente turco a dizer que abria as fronteiras para a Grécia, estava a utilizar a presença desses refugiados na Turquia como arma de arremesso e isso é completamente inaceitável", declarou, esta quinta-feira, o ministro da Defesa, João Gomes Cravinho

Falando à margem da reunião informal dos ministros da Defesa, que decorre na capital croata, em Zagreb, o ministro da Defesa vincou que a pressão turca "não surtirá qualquer tipo de efeito positivo". "Há que ter em conta esta realidade, de a Turquia ter quase quatro milhões de refugiados no seu território, e isso, evidentemente, merece uma atenção especial da UE, uma atenção reforçada em relação ao que tem sido o caso no passado", sustentou João Gomes Cravinho. Questionado sobre uma possível intervenção militar nas fronteiras externas da UE como forma de responder à Turquia, o responsável português rejeitou esta opção, privilegiando antes a via diplomática. "O meu colega grego [ministro da Defesa da Grécia, Nikos Panagiotopoulos], com quem tive ampla oportunidade de falar à margem nos corredores, não pede nenhum apoio militar, pede apoio político", disse João Gomes Cravinho.

Nos últimos dias, a tensão entre Ancara e Bruxelas tem vindo a intensificar-se após a Turquia ter anunciado a abertura de fronteiras para deixar passar migrantes e refugiados para a UE, ameaçando assim falhar os compromissos assumidos com o bloco comunitário. Com a medida, o Presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, pretende garantir mais apoio ocidental na questão síria, mas a intenção já foi veemente criticada por líderes de topo da UE, inclusive pela presidente do executivo comunitário.

Apesar de a Bulgária e o Chipre também serem pressionados, é sobretudo a Grécia que enfrenta esta pressão migratória nas suas fronteiras externas com a Turquia, o que levou o país a pedir, no passado domingo, que a agência europeia da guarda costeira, a Frontex, lançasse uma intervenção rápida nas fronteiras externas da Grécia no Mar Egeu. A Bulgária também solicitou apoio europeu para lidar com a chegada de migrantes e refugiados à sua fronteira.

A UE e a Turquia celebraram em 2016 um acordo no âmbito do qual Ancara se comprometia a combater a passagem clandestina de migrantes para território europeu em troca de ajuda financeira. Porém, a Turquia, que acolhe no seu território cerca de quatro milhões de refugiados, na maioria sírios, anunciou ter aberto as fronteiras com a Europa, ameaçando deixar passar migrantes e refugiados numa aparente tentativa de pressionar a Europa a assegurar-lhe um apoio ativo no conflito que a opõe à Rússia e à Síria.

João Gomes Cravinho observou, ainda, que "neste momento há um ambiente de grande tensão e alguma ambiguidade no relacionamento da Turquia com outros membros da NATO [Organização do Tratado do Atlântico Norte]", pelo que defendeu "mecanismos para superar" esta situação, desde logo por Ancara ser "um aliado valioso".

TSF

25 outubro 2009

Fugirá a Turquia?

Por José Cutileiro

No Domingo passado, o comissário europeu alemão, Günter Verheugen, falando à rádio no seu país disse que a União Europeia precisa mais da Turquia do que a Turquia precisa da União Europeia. "A Turquia é de importância estratégica primordial. Falo da segurança de toda a região. Imagine-se o que aconteceria se a Turquia decidisse tomar caminho diferente do de uma ancoragem firme na comunidade dos estados ocidentais. Seria um muito, muito grande risco para nós que é melhor não correr". Acrescentou que uma adesão turca à União Europeia "teria enorme vantagem para nós, ajudar-nos-ia a regularizar sem conflito as relações entre as democracias ocidentais e o mundo muçulmano do século XXI". Palavras assim, vindas de um responsável da União, são hoje raras. É de esperar que não venham tarde de mais - e que outras figuras europeias de peso digam coisas parecidas.
Porque a crise encurtou as vistas de muitos dirigentes políticos europeus e dos seus eleitores. No mesmo espírito em que se advogam medidas proteccionistas no comércio externo - o que é caminho certo para penúria geral - quer-se proibir a Turquia de entrar na União, com alguns a oferecerem-lhe em vez disso uma 'relação especial' impossível de configurar na prática - juntando assim o insulto à injúria. Sem coragem de serem politicamente incorrectos e admitirem que não querem os Turcos por estes, na sua esmagadora maioria, não serem cristãos mas muçulmanos, preferem declarar que é porque os Turcos não são europeus. Helmut Kohl dizia sempre que no mapa que tinha quando andava na escola a Anatólia era na Ásia. Esquecera entretanto a História: desde meados do século XIX até à sua extinção em 1923, muita gente, a começar pelo czar Nicolau I, chamara ao Império Otomano "o doente da Europa" - e não "o doente da Ásia".
Em Ancara e Istambul esta má vontade de chefes políticos europeus é aproveitada não só por extremistas religiosos mas também por nacionalistas laicos - interessados nas vantagens económicas de uma associação sem as obrigações morais e políticas da adesão - para reforçarem a propaganda antieuropeia no país e faz parecer a entrada da Turquia na União cada vez mais remota. Entretanto, o leque diplomático da 17.ª potência económica do mundo alarga-se para lá da pertença à NATO e da ambição europeia. As relações com a Rússia, seu principal fornecedor de energia, reforçam-se com o acordo recente com a Arménia; a solidariedade islâmica reafirma-se (cancelamento de exercícios militares com Israel por causa de Gaza; acusação de "genocídio" dos iugures por Pequim); a ambição de mediador no Médio Oriente (com a Síria, o Irão, até Israel) mantém-se.
A Turquia levará tempo a satisfazer requisitos cívicos e políticos de adesão. Mas o verdadeiro problema seria se xenofobia europeia e orgulho ferido otomano não deixassem fechar o negócio. Nesse dia Ancara continuaria a ter muito para onde se virar mas a Europa ficaria com um flanco perigosamente aberto.

(Fonte: Expresso)

18 outubro 2009

O preço da autonomia estratégica


Os últimos meses mostram que algo de muito interessante se está a passar na concepção e execução da política externa turca.
No início do ano, Recep Tayyip Erdoğan, o primeiro-ministro da Turquia, envolveu-se numa acesa discussão com Shimon Peres, o Presidente de Israel, no Fórum Económico Mundial. Na altura, Erdoğan criticou em termos contundentes a operação militar israelita em Gaza. A discussão acabou com o primeiro-ministro turco a abandonar a sala furioso com Peres e com David Ignatius, o moderador do painel. No regresso a Ancara, Erdoğan foi recebido no aeroporto como um herói por cinco mil pessoas com bandeiras turcas e palestinianas. Seis meses depois, o líder turco voltou à carga. Na altura, o seu alvo foi Pequim e a repressão contra a população uigur na província de Xinjiang. Depois de ter acusado o governo chinês de "selvajaria", Erdoğan deu um passo em frente e acusou Pequim de estar a levar a cabo um "genocídio".
As críticas de Ancara a Telavive e a Pequim mostram a ambição do governo turco de conquistar autonomia estratégica na região que vai da Bulgária até à Ásia Central. O problema é que o uso dos direitos humanos como arma retórica e política põe a nu um incómodo paradoxo.
A Turquia que no início do ano acusou Israel de matar deliberadamente palestinianos é o país que se recusa a aceitar que, entre 1915 e 1918, as tropas otomanas levaram a cabo um genocídio contra a população arménia que terá vitimado pelo menos um milhão de pessoas. A Turquia que criticou a acção das forças policiais e militares chinesas em Urumqi é um país onde não é possível ter uma discussão franca sobre os terríveis acontecimentos que em Setembro de 1922 levaram à destruição da cosmopolita cidade de Esmirna. A Turquia que defende e recebe o Hamas é o país que tem levado a cabo nas últimas décadas uma campanha militar, cultural e política contra a sua população curda e que se recusa a reconhecer e a negociar com o Partido dos Trabalhadores do Curdistão.
Em 415 a.C, em plena Guerra do Peloponeso, a peça de Eurípides "As Troianas" foi à cena em Atenas. Esta comovente tragédia é um ataque frontal ao horror da guerra e à acção das forças de Atenas na ilha de Melos poucos meses antes. Aquilo que os Atenienses de há dois mil e quinhentos anos foram capazes de fazer em breves meses é um crime na Turquia dos nossos dias. Escrever ou falar publicamente de uma forma franca, céptica ou crítica sobre as questões arménia e curda é o caminho mais rápido para arranjar sérios problemas com a polícia, os militares e os tribunais turcos. Para uma capital tão ambiciosa como Ancara, isto é um problema.
O fosso entre a retórica externa turca e a realidade doméstica chegou ao ponto de ruptura. Se Ancara quer mesmo ter uma política externa credível, caracterizada por um novo tipo de relacionamento com os seus vizinhos regionais, então as coisas têm de começar a mudar na maneira como a sociedade turca olha para a sua história e discute as questões curda e arménia. Duas iniciativas políticas recentes do Governo de ErdoĞan mostram vontade de acabar com o paradoxo turco.
A primeira, anunciada em Julho, envolve a concessão de mais direitos políticos e culturais à população curda. A segunda gira à volta da normalização das relações com a Arménia. Esta normalização é do interesse de Ancara e mudará muita coisa no Cáucaso. A abertura da fronteira com a Arménia diminuirá o papel da Geórgia no trânsito da energia do mar Cáspio em direcção à Europa. A negociação entre a Arménia e o Azerbaijão de uma solução para o problema de Nagorno-Karabakh poderá aumentar a influência de Moscovo em Baku.
O problema de Erdoğan e do seu governo é que estas duas iniciativas serão extremamente polémicas em termos domésticos. A autonomia estratégica e a influência externa têm o seu preço.

(Fonte: Expresso)

07 outubro 2009

O estranho diferendo de Chipre

Por João Carlos Barradas

Sobra muito pouco tempo ao novo primeiro-ministro grego, George Papandreou, para tentar desbloquear o impasse nas negociações para a reunificação de Chipre.
O líder socialista distingiu-se à frente da diplomacia de Atenas a partir de 1999 pelos esforços de normalização das relações com a Turquia e o apoio ao plano de reunificação de Chipre proposto pela ONU até ter sido afastado pelo novo ciclo de governação dos conservadores da Nova Democracia em Março de 2004.
O plano de Kofi Annan de criação de uma confederação na ilha dividida desde 1974 foi a referendo a 24 de Abril de 2004 e, apesar de aprovado pelos Cipriotas turcos, acabou rejeitado pelos Cipriotas gregos, precisamente uma semana antes da entrada formal de Chipre na União Europeia.

Bloqueios e vetos
A questão cipriota é um dos obstáculos maiores nas negociações de adesão da Turquia à União Europeia, encetadas em Outubro de 2005.

Apenas um dos 35 capítulos do processo formal de negociações foi concluído - "Ciência e Pesquisa" -, outros oito entretanto abertos estão congelados desde 2006 devido ao diferendo sobre tráfego em portos e aeroportos cipriotas, e a discussão do dossier "Energia" bloqueada pelo veto de Atenas.

O chefe do governo socialista em Atenas pode precisamente começar por pressionar para o levantamento deste veto para tentar desbloquear a recusa turca em permitir o tráfego de navios e aviões cipriotas gregos à parte Norte da ilha nos termos do acordo firmado com a União Europeia em 2005.

Qualquer iniciativa vinda da parte grega chegará já demasiado tarde para impedir a avaliação negativa da Comissão Europeia, a anunciar no próximo dia 14, quanto ao evoluir das negociações, dado que Ancara recusa o compromisso de abertura parcial de apenas um porto e um aeroporto no Norte da ilha sem que os 27 permitam simultaneamente o tráfego comercial por parte dos Cipriotas turcos.

Até ao Conselho Europeu de Dezembro alguma coisa poderá, no entanto, mudar de forma a permitir um compromisso entre o presidente cipriota grego Demetris Christofias e o seu homólogo turco Mehmet Ali Talat, que desde Setembro do ano passado têm negociado formalmente, sob mediação europeia e do enviado da ONU, o antigo ministro australiano dos negócios estrangeiros Alexander Downer.

As conversações bloquearam em Abril quando o Tribunal Europeu de Justiça reconheceu os direitos de Cipriotas gregos sobre propriedades em disputa na República Turca do Norte de Chipre, cuja declaração de independência em 1983 foi apenas reconhecida por Ancara.

Na mesma altura a direita nacionalista do Partido da Unidade Nacional triunfava na eleições para o parlamento, retirando a maioria aos sociais-democratas de Ali Talat e pondo em causa a sua reeleição nas presidenciais de Abril do próximo ano.

Todos perdem
A convergência entre Talat e Christofias - um histórico dos comunistas cipriotas gregos que ao ser eleito em Fevereiro de 2008 iniciou imediatamente contactos com o homólogo turco - corre o risco de vir a desaparecer para dar lugar a reiterados irredentismos nacionalistas.

Sem acordo de partilha de poder entre as duas comunidades a eventual retirada das tropas turcas - presentes no terço norte da ilha desde a invasão de 1974 em resposta ao golpe de estado da extrema-direita nacionalista grega apoiada pela Junta Militar em Atenas - ficará comprometida e a liberdade de movimento de pessoas, bens, capitais e serviços, tal como praticada na União Europeia sem efeito.

Para os 780 mil habitantes da República de Chipre (sendo 640 mil identificados como Cipriotas gregos) novo fracasso nas negociações sairá caro pois, além de arredar eventuais acordos de indemnizações quanto a propriedades perdidas no norte da ilha, redundará num maior isolamento no seio da União Europeia.

Para os 260 mil residentes turcos no norte da ilha (entre eles mais de 70 mil imigrantes turcos) a ausência de um acordo implicará uma dependência acrescida da Turquia na impossibilidade de desenvolverem contactos directos com o bloco da União Europeia.

As negociações de adesão da Turquia à União Europeia, por sua vez, entrarão em colapso e, as consequências quanto a estratégias para o sector energético ou cooperação com a NATO far-se-ão sentir no conjunto do bloco europeu.

O estranho caso de Chipre em que um país candidato à União Europeia recusa reconhecer um dos 27 estados membros, em que dois membros da NATO - Turquia e Grécia - se afrontam indirectamente por via de irredentismos étnicos, onde um terceiro - o Reino Unido - mantém bases militares, e em que todas as partes têm a perder com a continuação do diferendo, é um exemplo singular de como um secular domínio otomano caído nas mãos do império britânico, acaba por se tornar palco de um confronto étnico-religioso.

(Fonte: Jornal de Negócios)

13 maio 2009

O alento de Cavaco Silva à Turquia

Cumpre bem o seu papel Cavaco Silva ao alentar as esperanças da Turquia na adesão à União Europeia, mas as negociações entre Ancara e Bruxelas vão arrastar-se muito mais do que os sete anos que Portugal precisou para entrar na CEE e não existe qualquer garantia de que venham a ser bem sucedidas. As conversações encetadas em Outubro de 2005 não culminarão num acordo em 2013, conforme pretendera inicialmente o primeiro-ministo Recep Erdoğan, e a persistente oposição na França, na Alemanha, na Áustria e na Grécia à entrada da Turquia compromete a eventual adesão turca que, em último recurso, poderá ser vetada por qualquer destes Estados. Apenas um dos 35 capítulos do processo formal de negociações foi concluído ("Ciência e Pesquisa"), outros oito entretanto abertos estão congelados e até a discussão do dossiê "energia" está em causa devido ao veto do Chipre.

Um estendal de bloqueios
Na ilha dividida desde 1974, a eleição do presidente Demetris Christofias deu a partir do ano passado novo ímpeto às negociações com o seu homólogo turco Mehmet Ali Talat para criação de um Estado federal, mas os resultados foram nulos até agora. A vitória de nacionalistas de direita nas eleições legislativas do mês passado no norte de Chipre, seguida da decisão do Tribunal Europeu de Justiça que obriga a União Europeia a reconhecer os direitos de Cipriotas gregos sobre propriedades em disputa na zona turca, paralisou as negociações. O impasse em Chipre voltou ao ponto em que se encontrava quando o acordo de reunificação proposto pela ONU foi rejeitado em 2004 pelos Cipriotas gregos. Os Cipriotas turcos continuam a interditar o tráfego de navios e aviões cipriotas gregos, enquanto Ancara rejeita o estatuto de Chipre como Estado membro da União Europeia e continua a ser o único país a reconhecer a República Turca do Norte de Chipre. As reformas promovidas pelo governo turco nas áreas dos direitos humanos, estatuto das mulheres e da minoria curda são ainda insuficientes para satisfazer os critérios da União Europeia e persiste a tensão entre os militares, Erdoğan e o presidente Abdullah Gül, eleito em 2007 pelo Partido da Justiça e do Desenvolvimento. Em Julho do ano passado a interdição do Partido da Justiça e do Desenvolvimento - no poder desde Março de 2003 - por alegado crime de subversão do estatuto laico do Estado, chumbou no Tribunal Constitucional pela diferença de apenas um voto (seis dos onze juízes votaram pela dissolução, aquém, portanto, da maioria necessária de sete votos) tendo sido assim evitada "in extremis" uma crise institucional. O processo aberto em Outubro de 2008 contra a rede militar clandestina ultra-nacionalista Ergenekon, acusada de terrorismo e conspiração, continua, por sua vez, a inquinar as relações entre as forças armadas e os islamitas.

Um desenvolvimento positivo
Além da progressiva normalização das relações com a Grécia, a perspectiva do estabelecimento de relações diplomáticas entre a Turquia e a Arménia, apesar das reticências do Arzebaijão que teme perder o apoio de Ancara para recuperar os territórios perdidos para Erevan na guerra de 1991-1994, é o desenvolvimento mais prometedor para sustentar as aspirações turcas a uma integração europeia. O desanuviamento entre Turcos e Arménios contribuiu para que a Turquia, bem como o Arzebaijão e a Geórgia, acedesse na semana passada a participar no gasoduto Nabucco, mas Ancara, apesar de ter desistido das exigências de um desconto de 15 % na compra do gás que passe pelo seu território, faz depender a efectiva participação no projecto da abertura a curto prazo do dossiê energético nas negociações com Bruxelas. A viabilidade do gasoduto de 3300 quilómetros para transporte de gás do Cáspio via Turquia, Bulgária, Roménia e Hungria para a Áustria, orçado em cerca de oito mil milhões de euros, depende ainda da garantia de acesso a fornecimentos do Turquemenistão - além das vendas em menor escala do Cazaquistão e Uzbequistão - e eventuais complicações políticas em Ancara ou no Cáucaso podem adiar o início dos trabalhos de construção previsto para 2011. A Turquia adquire 63 % do gás natural que consome à Rússia e tal como a União Europeia, dependente de Moscovo para 40 % das importações, tem particular interesse na concretização do Nabucco o que limita a sua capacidade negocial frente a Bruxelas.

Um apoio bem necessário
O apoio de Portugal às aspirações europeias da Turquia, reiterado por Cavaco Silva, é deveras importante porque vai ao arrepio dos temores religiosos e demográficos de Alemães ou Franceses e sublinha a importância estratégica turca no Médio Oriente e no Mar Negro. O alento que o presidente leva à Turquia assume, ainda, grande significado conjuntural dado que em Dezembro a União Europeia terá de fazer o ponto da situação nas negociações com Ancara que estão, para efeito práticos, bloqueadas. Será um alento bem necessário, mas, de facto, a eventual adesão turca dificilmente se concretizará mesmo no final da próxima década e serão necessárias grandes mudanças no xadrez internacional para ultrapassar a obstinada oposição de Alemães, Franceses, Austríacos e Gregos à integração de um Estado que de imediato se tornaria no maior país da União.

(Fonte: Jornal de Negócios)

15 novembro 2008

O limbo turco

[...] As diferenças entre as duas cidades [Lisboa e Istambul] e os dois países [Turquia e Portugal] estão longe de terminar no reino animal, mas apontam-se algumas coincidências. Como os Portugueses há mais de vinte anos, antes da adesão à Comunidade Económica Europeia em 1986, os Turcos querem ser aceites no clube da União Europeia (UE). Com o estatuto de país candidato desde 1999, sente-se a frustração pelo adiamento de uma promessa de Bruxelas. Trata-se, porém, de um sentimento ambivalente. Na Fundação de Escritores e Jornalistas, o dirigente Erkam Aytav dizia que – "como cidadão europeu" – mantém sérias dúvidas sobre os benefícios para a UE e para a Turquia, ainda que seja um fervoroso apoiante da adesão enquanto "cidadão turco". Com uma população de mais de 75 milhões de habitantes, a Turquia é isto mesmo: um encontro de civilizações, ponte de ligação entre a Europa e a Ásia, o Cristianismo e o mundo muçulmano, o passado e o futuro. Ninguém parece ter perdido a esperança, mas muitos dirigentes políticos desconfiam do que chamam "traição europeia". É difícil encontrar uma posição definitiva sobre o assunto, sendo certo que Istambul perderá parte do seu encanto babilónico se tiver de submeter-se aos decretos e regulamentos de Bruxelas. Porém, manter o país de Atatürk nesta espécie de limbo europeu, entre o céu de Bruxelas e o inferno da ameaça fundamentalista, é muito perigoso e poderá ter consequências imprevisíveis. Para a Turquia e para o futuro da União Europeia.

04 agosto 2008

Entre Islão e Laicismo Turquia elegerá Europa

Hoje o partido é da Justiça e Desenvolvimento, mas os islamitas turcos têm sido imaginativos a rebaptizar o seu projecto político: da Salvação Nacional, do Bem-Estar, da Virtude, da Felicidade. Tudo para contornarem os obstáculos criados pela elite laica que dita as regras nesse país muçulmano desde a proclamação da república em 1923. A última arremetida aconteceu há dias, com o supremo tribunal a abster-se - por um voto! - de dissolver um partido que conta com metade do eleitorado e tem como militantes o primeiro-ministro Recep Erdoğan e o Presidente Abdullah Gül. Tudo porque o AKP (Adalet ve Kalkınma Partisi) é suspeito de pôr em causa o laicismo decretado por Kemal Atatürk para lançar a moderna Turquia, nascida das ruínas do império otomano. A decisão do supremo foi a mais sensata. Através de um rude corte no financiamento público do AKP, advertiu Erdoğan para não desafiar o legado de Atatürk, o homem que entendia a Europa como modelo. Mas ao mesmo tempo não derrubou um partido com enorme popularidade, evitando um conflito entre as duas correntes dessa nação de 71 milhões de habitantes, considerada a mais democrática do mundo islâmico e candidata oficial à União Europeia desde 2005. Aliás, tanto Europeus como Americanos (a leal Turquia integra a NATO desde 1952) fizeram saber que uma ilegalização do AKP seria péssima para a imagem do país. Não se repetem assim os tempos em que os militares - guardiães máximos do 'atatürkismo' - faziam golpes quando a via política não lhes agradava (1960, 1971 e 1980) ou pressionavam a justiça para ilegalizar os islamitas (1997). Erdoğan, porém, terá de ter em mente o derrube de Necmettin Erbakan, a quem de nada valeu ser primeiro-ministro quando o seu Partido do Bem-Estar foi decretado antilaico. O véu que usa Emine Erdoğan, e também a senhora Gül, é tido como um ultraje pelos laicos. E ainda mais grave foi a intenção de abolir a lei que interdita o uso do lenço nas universidades. Mas essa polémica é - sem trocadilhos - a ponta do véu: o moderado AKP é elogiado por recuperar a economia e aprofundar o Estado de direito, mas ao mesmo não pode, invocando as liberdades individuais, desafiar os alicerces que tornaram a Turquia um caso de sucesso no mundo islâmico. E que lhe abriram as portas do Ocidente, seja através da NATO seja um dia graças à adesão à União Europeia. É que uma Europa unida das Ilhas Britânicas à Anatólia é o caminho a seguir. E nem tão surpreendente assim: acaba de chegar ao Museu Britânico, em Londres, um busto de meia tonelada de Adriano encontrado numas escavações na Turquia. Um imperador romano do século II que foi até à Inglaterra observar a construção da muralha a que dá nome, mas também à Anatólia controlar as fronteiras orientais do seu domínio.

O intervalo turco

In Expresso por Miguel Monjardino

Foi por muito pouco. Apenas um voto impediu o Tribunal Constitucional da Turquia de extinguir o Partido da Justiça e Desenvolvimento (AKP, no Governo) e de banir o Presidente Abdullah Gül, o primeiro-ministro Recep Tayyip Erdoğan e dezenas de outras pessoas do AKP de exercerem actividade política durante alguns anos. O partido e os seus líderes eram acusados de querer aumentar drasticamente a influência da religião no dia-a-dia da Turquia, uma acusação extremamente grave num país dominado há décadas por uma elite que sempre viu a subordinação da religião ao Estado como algo essencial. Em vez de ser extinto, como pretendia o procurador-geral Abdurrahman Yalçınkaya, o Tribunal Constitucional restringiu o acesso do AKP a fundos públicos. Dito de outra forma, o tribunal considerou parcialmente procedente a acusação. Abdullah Gül, Recep Tayyip Erdoğan e os seus colegas continuam a exercer os seus cargos políticos mas levaram um cartão amarelo.
O acórdão mostra que a Turquia está a passar por um momento extremamente delicado do ponto de vista político. A fragilidade da situação ficou bem expressa nas palavras do juiz-presidente, Haşım Kılıç: "Espero que este acórdão seja muito bem estudado e que o partido em questão receba a mensagem desejada. Hoje o tribunal não conseguiu o número de votos necessário para fechar um partido... mas este acórdão é um aviso ao partido. Um aviso sério". A maneira como este acórdão vai ser recebido e gerido pela liderança do AKP e pela oposição terá enorme influência no futuro da Turquia. Se olharmos para a geopolítica e para a economia do país, vemos que Ancara tem, pela primeira vez em muitas décadas, trunfos muito importantes nas mãos. Todavia, na ausência de um consenso político e social interno, estes trunfos valerão bastante menos no futuro.
A primeira coisa a fazer do ponto de vista geopolítico é relembrar que durante séculos o território da actual Turquia foi a sede de um império extremamente poderoso e influente no Mediterrâneo e Mar Negro do ponto de vista militar e comercial. Se tivermos isto presente, vemos que a Turquia a que nos habituámos nas últimas décadas é uma aberração histórica. Esta Turquia é o resultado do colapso do império Otomano e da Guerra Fria. Ambos os acontecimentos diminuíram drasticamente a ambição e a margem de manobra externa de Ancara. Nos últimos anos Ancara tem vindo a libertar-se desta herança e a regressar a áreas onde historicamente foi tida em conta - Ásia Central, Cáucaso, Médio-Oriente e Sudoeste da Europa. A anunciada intenção dos países europeus de diminuírem a sua dependência energética em relação à Rússia aumenta ainda mais a importância geopolítica da Turquia. Os partidários da entrada de Ancara na União Europeia (UE) sabem isto muito bem. As capacidades militares e o potencial geopolítico da Turquia tornariam a UE uma entidade substancialmente diferente da actual. O que é importante ter presente agora é que, ao contrário do que aconteceu entre 1923 e, digamos, 2001, a Turquia tem hoje muito mais opções.
Se olharmos para a economia, vemos o mesmo. Em 2001 a Turquia esteve à beira de um precipício económico. O sistema bancário entrou em colapso, a lira perdeu metade do seu valor e o país entrou em recessão. A primeira vitória do AKP em 2002 permitiu que fosse iniciado um importante processo de reformas económicas. Estas reformas ajudaram a economia turca a crescer desde então a um ritmo de 6% ao ano e têm vindo a atrair importantes investimentos estrangeiros. Nos últimos seis anos estes investimentos atingiram a casa dos 22 biliões de dólares. Os grupos económicos e as empresas turcas também não têm estado propriamente parados. Investiram 28 biliões de dólares na Rússia em 2006 e vão querer participar activamente nos enormes investimentos que Moscovo vai fazer nas suas dilapidadas infra-estruturas até 2020. No Iraque, especialmente no Curdistão, os investimentos turcos já ultrapassaram os 10 biliões de dólares. A Turquia é um país cada vez mais activo na economia internacional. A estrutura demográfica confirma o potencial do país como um mercado extremamente apetecível.
O potencial da Turquia é um resultado das transformações geopolíticas regionais e da sociedade e economia do país. Para grande parte da elite turca e muitos europeus, este processo de transformação deveria diminuir o papel da religião na sociedade turca. Em vez disso, e como é natural, a crescente prosperidade e integração na economia internacional está a tornar a religião mais importante para cada vez mais pessoas. O problema é que a maior importância e visibilidade da religião tem vindo a dividir profundamente o país nos últimos anos. Resolver este impasse através de um novo consenso político será vital para a concretização dos actuais trunfos turcos. O acórdão do Tribunal Constitucional mostra a dimensão do actual impasse constitucional em Ancara. Esta semana a Turquia foi para intervalo.