google.com, pub-7650629177340525, DIRECT, f08c47fec0942fa0 Notícias da Turquia

11 junho 2013

Erdoğan acusa manifestantes de golpe de Estado encapuzado

O primeiro-ministro turco acusa os manifestantes da Praça Taksim de prejudicarem “deliberadamente” a imagem e a economia da Turquia.
Recep Tayyip Erdoğan, que discursou perante o grupo parlamentar do seu partido, o AKP, vai mesmo mais longe e acusa-os de tentativa encapuzada de golpe de Estado. “Podem plantar árvores, podem fazer tudo isso, não há obstáculos. Mas apresentar a situação como se houvesse obstáculos à liberdade é uma tentativa de encontrar alternativas ao que não conseguiram fazer nas mesas de voto. As questões ambientais são usadas para diferentes acções, diferentes objectivos e mentalidade, mas também são usadas para disfarçar um levantamento ilegal contra um Governo democraticamente eleito”, afirmou Erdoğan. O discurso de Erdoğan, muito aplaudido pelo seu partido, ocorreu poucas horas depois de a polícia ter desalojado, pela força, os manifestantes que, há cerca de uma semana, assentaram arrais na praça Taksim, em Istambul.
 
(Fonte: Euronews)

08 junho 2013

As manifestações na Turquia no traço de ilustradores portugueses

 
A violência das imagens que passam nas televisões, que se vêem nas redes sociais e nas notícias online; as conversas com os amigos turcos fizeram um colectivo de ilustradores portugueses despertar para o que se está a passar na Turquia por estes dias.
Aquilo que começou por ser um protesto pacífico contra os planos de remodelação do Parque Gezi, no último dia de Maio, transformou-se num protesto diário contra o Governo de Recep Tayyip Erdoğan, em parte devido à intervenção violenta da polícia sobre os manifestantes.
Os canhões de água e o gás pimenta usado para dispersar os manifestantes têm corrido mundo em fotografias que começam a tornar-se simbólicas e que revelam a violência que se vive naquele país, acredita um grupo de ilustradores de Lisboa, Porto e Coimbra que, de forma espontânea e numa semana, expressaram no papel, através da ilustração, os dias que se vivem na Turquia.
O conjunto das ilustrações dos 13 artistas chama-se "Ilustrações para a Turquia: Pelo direito à liberdade, à justiça e à protecção do Estado". O objectivo é manifestar "através do seu trabalho, a solidariedade devida a quem, pondo em risco a própria vida, defende por estes dias na Turquia os direitos da Humanidade", escreve Pedro Rodrigues, porta-voz do colectivo de ilustradores, num texto enviado ao PÚBLICO.
Pedro Rodrigues recorda que os órgãos de comunicação social turcos não passam a informação e ignoram os acontecimentos, recorda que o acesso à Internet e às comunicações móveis foi bloqueado pelo Governo. Por isso, o colectivo criou uma página no Facebook, onde procuram passar informação. É nessa página que estas ilustrações serão publicadas. O próximo passo é editá-las num fanzine. "Queremos usar todos os meios para conseguir a maior divulgação possível, para que as pessoas em Portugal tomem consciência do que se está a passar numa sociedade democrática. É uma questão de direitos humanos, é uma questão universal", explica o porta-voz em entrevista ao PÚBLICO.
"Estes alertas são importantes para não esquecermos o que se passa à nossa volta. Se quisermos pensar em nós [portugueses], o que se está a passar na Turquia é um sinal importante. Trata-se de um Governo legitimamente eleito, em democracia, que assume atitudes de estado autoritário e ditatorial. Isto deve fazer-nos reflectir", conclui Pedro Rodrigues.
 
(Fonte: Público)

07 junho 2013

Erdoğan exige fim “imediato” dos protestos

O primeiro-ministro turco, Recep Tayyip Erdoğan, regressou ao país nas primeiras horas desta sexta-feira e exigiu o fim imediato das manifestações que pedem a sua demissão. “Estes protestos que estão no limite da ilegalidade devem acabar já”, disse Erdoğan, citado pela BBC, no aeroporto de Istambul. O primeiro-ministro turco foi ainda mais longe, segundo a AFP, e afirmou que os protestos “perderam o seu carácter democrático” e cederam “ao vandalismo”. Recebido por milhares de apoiantes no aeroporto – que gritavam “Estamos prontos para morrer por ti, Tayyip" ou "Vamos lá esmagá-los todos” –, Erdoğan apelou à calma e ao bom senso. “Vão para casa pacificamente”, pediu o chefe de Governo. A recepção a Erdoğan, que esteve de visita a países do Magrebe, é a primeira manifestação de apoio ao primeiro-ministro, desde o início dos protestos há uma semana. Enquanto o primeiro-ministro regressava a casa, prosseguiam as manifestações, especialmente na Praça Taksim, em Istambul, local que esteve na origem do protesto – ali ao lado o Parque Gezi dará lugar a um centro comercial numa recriação de uma caserna militar otomana. Antes de regressar a Istambul, Erdogan já tinha dito em Tunes que não recuará nos seus planos de construir a caserna e que as manifestações são feitas por uma minoria, em que estão terroristas.
 
(Fonte: Público)

06 junho 2013

Há Portugueses a desenhar nos protestos de Istambul



Chegou à Turquia a 30 de Maio, um dia antes da onda de protestos ter rebentado, em Istambul. Luís Simões está a fazer uma viagem pelo mundo, a World Sketching Tour, e ficou surpreendido com o que viu na praça Taksim, naquela cidade. “Pelas artérias até Taksim havia muitas pessoas, ouviam-se gritos, alguns turistas bebiam cervejas tranquilamente, inconscientes do que se passava”, relata.

O que se passava era uma das várias manifestações na cidade turca. Começaram por ser contra a decisão de construção de um centro comercial no parque Gezi — um acampamento pacífico — e evoluíram para demonstrações de descontentamento com o governo de Recep Tayyip Erdoğan.

“A violência da carga policial da madrugada de 31 de Maio, recorrendo a gás-pimenta [sobre o acampamento pacífico], levou a que milhares se juntassem durante o dia para protestar contra a actuação da polícia”, relata Pedro Fernandes, a viver em Istambul desde 2012, junto a Taksim. “Decidi fazer a cobertura desenhada do que se passava para registo futuro e para partilhar com a comunidade de desenhadores Urban Sketchers.”

“O cenário de guerra está montado entre Taksim e Beşiktaş e todas as noites existem manifestações grandes nessa zona, assim como pequenos movimentos por toda a parte em Istambul”, diz Luís. Os dois portugueses — um recém-chegado, o outro já habituado à cidade — estiveram juntos a desenhar, após os confrontos com a polícia, no bairro de Beşiktaş, e ainda sofreram as consequências do gás-pimenta.

Para Luís foi “impressionante” poder registar, no papel, o que acontecia. “A minha mão tremia muito e foi difícil estar concentrado [...] Havia o medo de que a polícia voltasse a atacar a praça e corria o perigo de ficar ali preso”, descreve. “A verdade é que ainda não consegui digerir bem tudo o que está a acontecer e sempre que olho para o desenho fico incomodado.”

Um domingo (quase) normal em Gezi
Depois de sexta-feira e sábado (31 de Maio e 1 de Junho, respectivamente) terem sido dias agitados, Pedro decidiu passar pelo Parque Gezi — cuja hipótese de destruição despoletou os protestos — “para ver como estavam as coisas”, no domingo. “O ambiente era ‘piqueniqueiro’, muitas famílias tinham trazido as crianças para brincar no parque infantil”, retrata.

Enquanto isso, em Taksim, “jaziam carcaças de automóveis” e as pessoas “passavam em frente das retro-escavadoras esventradas”. “Tentei desenhar o enorme aparato policial em Beşiktaş, mas sempre com bastante prudência e discrição. Houve tantas detenções e espancamentos aleatórios nestes últimos dias... — e eu nenhuma vontade tinha em fazer parte dessa estatística”, confessa Pedro.

A reacção de quem passa e vê pessoas a desenhar “varia muito”: muitos acham “curioso” e param para olhar, outros fotografam, refere Pedro. Há quem tente conversar num misto de “turco inglês e até alemão” e quem “peça desculpa pela actuação da polícia”. Uma perguntou-lhe, ao saber que era estrangeiro, se teve medo. “Só da polícia”, respondeu.

Neste momento, diz, vive-se um impasse. “O primeiro-ministro recusa demitir-se, rejeita o recuo na construção do empreendimento de Taksim e acusa os manifestantes de serem anti-democráticos e estarem a ser manipulados pela oposição”, esclarece. Os manifestantes mantêm o cerco ao palácio de Dolmabahçe e as manifestações continuam em várias cidades turcas — as mais violentas em Istambul e Ancara.
 
(Fonte: Público)

05 junho 2013

Concentração em Lisboa solidária com protestos

Um grupo de percussionistas marcou nesta quarta-feira o ritmo de uma concentração frente à embaixada da Turquia em Lisboa sob o lema “Somos Todos Turcos”, em solidariedade com a “heróica luta e resistência do povo da Turquia”.
Cerca de 100 pessoas, sobretudo jovens e onde se incluíam diversos estudantes turcos, responderam ao fim da tarde ao apelo da Plataforma 15 de Outubro, que mobilizou o protesto através das redes sociais.
Na Avenida das Descobertas, onde se concentram diversas embaixadas, um grupo de polícias observava junto à representação turca a concentração que decorria no lado oposto da alameda, e onde se exibiam bandeiras turcas e numerosos cartazes, alguns a apelaram aos condutores para buzinarem em sinal de solidariedade.
“Apitem por Istambul”, era um dos placares exibidos por uma efusiva manifestante com um longo vestido vermelho com o crescente branco da bandeira turca, num incentivo aos condutores. Muitos aceitaram o desafio.
“Dayanisma/Solidariedade”, “A Liberdade é Laica”, “Parem a violência contra a democracia”, “Fim à censura dos media. Fim dos ataques à democracia”, os dois últimos cartazes escritos em inglês, dançavam ao ritmo dos batuques os percussionistas, com o ritmo imposto por um jovem com apito.
“O objectivo é demonstrar solidariedade (…) também estamos contra o nosso Governo tal como eles estão, e vimos prestar solidariedade, temos esse ponto em comum. Enquanto o povo turco estiver na rua a lutar heroicamente e com coragem pelos seus direitos será um exemplo para nós, e queremos mostrar-lhes que estamos solidários ”, disse à Lusa Sofia Rajado, da Plataforma 15 de Outubro. “Na sexta-feira há outro acto de solidariedade aqui, e também estaremos presentes”, acrescentou.
A concentração ocorreu seis dias após o início dos confrontos no Parque Gezi, perto da Praça Taskim em Istambul, na sequência da mobilização de diversos grupos da sociedade civil contra um controverso plano urbanístico.
De imediato, e após a violenta intervenção policial que provocou dezenas de feridos, o protesto ganhou uma dimensão política e com dimensão nacional contra o Governo do primeiro-ministro Recep Tayyip Erdoğan, que desde 2002 lidera um Executivo islamita-conservador.
“Todos os que conheço, a minha família, namorada, amigos estão na resistência, a resistir à violência da polícia, e todos os dias são gaseados pela polícia. Estamos aqui para fazer parar esta violência da polícia e as políticas de Erdoğan”, refere com convicção Ozhan, 25 anos e que frequenta um doutoramento na Fundação Gulbenkian.
“Os protestos decorrem em todas as cidades da Turquia, são milhões em todas as ruas, mas os principais media turcos ignoram-nos. Não mostram nada, apenas belos documentários num belo contexto, enquanto milhões de pessoas estão nas ruas”, denuncia.
Ozhan recusa que a Turquia esteja agora fracturada em dois campos opostos. “São pessoas que procuram a sua liberdade, os direitos democráticos, os direitos humanos básicos, como a liberdade de expressão”, assegura.
“Não podemos falar em eleições livres se não existirem media livres no país. É verdade que Erdoğan foi eleito por 50% dos eleitores, mas isso não lhe dá o direito de oprimir a outra metade do povo. Este movimento começou contra a destruição de árvores no parque, começou verde mas agora tem todas as cores”, frisou.
Essa perspectiva era partilhada por Ali, 32 anos, que frequenta um doutoramento no Instituto Champalimaud. Natural de Ancara, considera que a repressão vai agora acentuar na capital turca.
“Existe a preocupação de que o Parlamento ou a presidência sejam atacados, mas a questão tem a ver com democracia, com escutar a opinião dos outros, porque vivemos todos no mesmo país”, declarou.
 
(Fonte: Público)

Os protestos continuam e utilizadores do Twitter são detidos



A contestação voltou à rua na Turquia, na noite de terça para quarta-feira, horas depois de o vice-primeiro-ministro, Bulent Arınç, ter pedido desculpa aos manifestantes feridos nos protestos contra as políticas islamizadoras do Governo.
Em Istambul e Ancara, a polícia usou gás lacrimogéneo e canhões de água para tentar dispersar centenas de manifestantes que, em ambas as cidades, ignorando ordens para dispersar, procuraram, segundo a AFP, chegar às instalações onde funcionam os gabinetes do primeiro-ministro, Recep Tayyip Erdoğan.
Em Esmirna, a intervenção policial foi de outra natureza: 25 detenções por difusão de “informação errada” na rede social Twitter, noticiou a agência Anatólia. No domingo, Erdoğan tinha considerado o site de microblogging uma “ameaça” que estava a ser usada para espalhar “mentiras”.
Um dirigente do Partido Republicado do Povo (CHP), Ali Engin, disse que os detidos estavam a “apelar às pessoas para protestarem”.
Em Istambul, antes da intervenção policial, milhares de pessoas tinham-se concentrado na Praça Taksim, centro simbólico das manifestações em Istambul, num ambiente descrito pela BBC como de quase festa, devido ao discurso em que Arınç considerou os protestos “justos e legítimos” e lamentou o “excessivo uso da força” – embora tenha acrescentado que as manifestações foram entretanto tomadas “por elementos terroristas” e apelado ao seu fim.
Na que foi a quinta noite de protestos, houve também confrontos na cidade de Hatay, no Sudeste. A televisão privada NTV noticiou que dois polícias e três manifestantes ficaram feridos. Em Esmirna, onde ocorreram as detenções de utilizadores do Twitter, o ambiente foi de festa e a polícia manteve-se à margem, apesar de alguns jovens terem, segundo um repórter da BBC, destruído câmaras e arremessado tijolos.
A confederação sindical Disk anunciou entretanto a adesão, esta quarta-feira, a uma greve de dois dias de apoio aos manifestantes iniciada na terça-feira pela central sindical Kesk, que representa cerca de 240 mil trabalhadores do sector público.
Os protestos contra as políticas islamizadoras, o autoritarismo e a repressão já causaram dois mortos – um jovem de 22 anos morreu devido a ferimentos sofridos numa manifestação antigovernamental, em Antakya, de disparos de um atirador não identificado, e um manifestante foi atropelado, na segunda-feira, em Istambul.
A associação turca de direitos humanos calcula em mais de 2800 o número de manifestante feridos, muitos com gravidade, e 791 detenções. “Cerca de 500” detidos foram posteriormente libertados. Fontes oficiais quantificam em 300 o número de feridos que dizem serem maioritariamente elementos das forças de segurança.
Em Marrocos, em visita oficial, o primeiro-ministro disse que quando regressar “os problemas estarão resolvidos”.
 
(Fonte: Público)

04 junho 2013

Algo está a acontecer na Turquia

Na Turquia, milhares de pessoas estão nas ruas a protestar contra o Governo e contra o primeiro-ministro Recep Tayyip Erdoğan. Liberais, secularistas, islamitas, esquerdistas e nacionalistas, entre outros, todos convergem para um mesmo centro gravítico de protesto. Independentemente das filiações ou simpatias políticas, religiosas ou ideológicas, todos os que discordam das políticas de intolerância do Governo cantam nas ruas "lado a lado, contra o fascismo" ou "Governo para a rua!". Erdoğan designa-os de pequeno grupo de marginais. Contudo, para além de serem aos milhares, esta multidão inclui cidadãos comuns que querem exprimir o seu descontentamento com o Governo. Os manifestantes têm tido como resposta a violência policial desmesurada e a desconsideração dos meios de comunicação turcos. Porém, devido à partilha nas redes sociais das fotos e dos vídeos da reação violenta do Governo, mais e mais pessoas saem das suas casas para se juntarem à multidão. Apesar dos protestos terem começado em Taksim, indicado nos guias turísticos como o coração de Istambul, rapidamente se alastraram a muitas outras zonas de Istambul e da Turquia.
Os protestos em larga escala foram desencadeados pelo uso desproporcionado da força policial contra um pequeno grupo de pacifistas que se manifestavam pela preservação do parque Gezi. O parque Gezi está situado na praça de Taksim e é uma das únicas áreas verdes do centro de Istambul. Os protestos começaram na segunda-feira de 27 de Maio com um assentamento pacífico, uma tentativa para impedir um projecto imobiliário que visa substituir o parque por um centro comercial. Durante vários dias e várias noites, cerca de 50 pessoas levaram a cabo um protesto que envolvia piqueniques, música e leituras. Quando a polícia usou canhões de água e puxou fogo às tendas para dispersar os manifestantes, mais pessoas se juntaram ao protesto. E quanto maior o número de manifestantes, maior o nível de violência policial. Na sexta à noite (1 de Junho), milhares de pessoas (muitas delas nunca participaram numa manifestação) saíram de casa e encheram Taksim. E foram para Taksim mesmo sabendo que teriam que enfrentar o gás lacrimogéneo, usado de forma regular pela polícia turca nas manifestações do último mês. Como previsto, tiveram de aguentar com o gás. Enquanto a polícia cercava a zona de Taksim, e usava gás lacrimogéneo em todas as ruas daquela zona da cidade, as multidões cantavam: "venha o gás, venha o gás! Tirem os capacetes e larguem o bastão para ver quem é mais duro". Entretanto, mais pessoas começaram a encher as praças de outras cidades turcas. Nas áreas residenciais gente de todas as idades saiu para a rua a bater em tachos e panelas. No momento em que estas palavras estão a ser escritas, as manifestações, a violência policial e a negação do caráter maciço deste protesto por parte de Erdoğan continuam.
Protestos desta dimensão nunca poderiam ter como causa única a questão do parque Gezi. O descontentamento na sociedade turca tem vindo a crescer com a intensificação dos ataques a todo o tipo de oposição ao partido do governo (AKP - Partido da Justiça e do Desenvolvimento). O AKP, fundado em 2001 por membros dos partidos islamitas anteriormente ilegalizados, definiu-se como um partido conservador democrata e assegurou que seria o pioneiro da democracia e da tolerância. Em 2002 venceram as eleições com 34% dos votos e formaram um Governo de partido único. Em 2007 aumentaram a base de apoio para 43% dos votos. E em 2011 chegaram aos 50%. Este sucesso traduziu-se em grandes níveis de confiança nos membros do Governo. O líder do partido, e primeiro-ministro Recep Tayyip Erdoğan, referiu várias vezes "o meu povo votou em mim, eu tenho a autoridade popular. Não preciso de pedir autorização a ninguém para levar a cabo as minhas políticas". O sucesso eleitoral do AKP foi acompanhado por um período de estabilidade e progresso económico. Durante os seus mandatos a economia recuperou da crise turca de 2001, a Turquia tornou-se na 16.ª economia mundial e conseguiu recuperar dos efeitos da crise financeira mundial. No entanto, os resultados económicos tiveram como contrapartida o aumento da intolerância à crítica política. As prisões e as detenções generalizadas de jornalistas e estudantes que criticam o Governo foram um dos maiores exemplos de intolerância à oposição. Actualmente, existem mais de 100 jornalistas detidos/presos/condenados devido às suas opiniões, publicações e, nalguns casos, pré-publicações. Como referido num artigo dos Jornalistas sem Fronteiras, " A Turquia é neste momento a maior prisão do mundo para jornalistas, um triste paradoxo para um país que se apresenta como um modelo regional de democracia".
As restrições oficiais à celebração dos feriados nacionais na Turquia têm sido um motivo de preocupação para os secularistas republicanos. Em Outubro de 2012, a proibição governamental da caminhada, levada a cabo por cidadãos e altos-cargos oficias, ao Mausóleu de Kemal Atatürk, fundador da Republica Turca, no Dia da Republica Turca, gerou uma grande sublevação nacional. As pessoas que ainda assim decidiram visitar o túmulo de Ataturk com bandeiras da Turquia na mão, depararam-se com o bloqueio policial e com gás lacrimogéneo. O líder do maior partido da oposição o CHP (Partido Popular Republicano, conhecido como o partido de Atatürk por ter sido fundado por este) também estava entre a multidão.
O 1.º de Maio, o Dia do Trabalhador, também sofreu restrições. O governador de Istambul proibiu todo tipo de celebração ou manifestação na praça de Taksim, vista desde há muito como um local símbolo da resistência e da liberdade. Para impedir o acesso a Taksim, os transportes públicos foram suspensos e o acesso a uma ponte pedonal foi bloqueado.
Outro aspecto que alimenta a crescente revolta contra o possível desaparecimento do parque Gezi está relacionada com a política governamental continuada de destruição de monumentos históricos e culturais em Istambul. Recentemente, os históricos cinema Emek e a pastelaria Inci, reconhecidos como património de Taksim, foram demolidos apesar do desagrado da população. A polícia usou gás lacrimogéneo num pequeno grupo de manifestantes pacíficos pela salvaguarda do cinema Emek, um grupo de artistas que incluía actores e actrizes nacionais famosos. De facto, o uso excessivo de gás lacrimogéneo, canhões de água e bastões em manifestantes tem vindo a tornar-se tão usual que, ainda antes dos protestos do parque Gezi se terem iniciado, um cidadão dos EUA residente na Turquia queixou-se de ter sido sujeito a gás lacrimogéneo por três vezes numa semana enquanto se dirigia a pé para o local de trabalho em Taksim.
Outro factor de agravamento da insatisfação popular tem sido a percepção de crescente intromissão governamental no estilo de vida da população. Esta tomada de consciência foi agravada no início da semana passada quando o Parlamento turco aprovou leis para restringir o consumo de bebidas alcoólicas. Na mesma altura houve um "protesto de beijos" em Ancara contra as advertências dadas pelos maquinistas do metro para que os passageiros "agissem de acordo com as leis morais".
Por último, o silêncio dos meios de comunicação social turcos relativamente aos protestos do parque Gezi tem contribuído de forma significativa para a intensificação do mal-estar da população. No fim de semana não houve cobertura jornalística dos milhares de manifestantes atingidos em várias cidades turcas com gás lacrimogéneo, balas de borracha e jactos dos canhões de água. As redes sociais foram (e, em grande medida, continuam a ser) a única via de comunicação para os manifestantes. Quem não tem acesso à internet muitas vezes ignora o que está a ocorrer nas suas próprias cidades. Um jovem escreveu no facebook: "Eu vivo em Taksim, nos últimos dois dias a minha casa tem estado cheia de gás lacrimogéneo, e os meus pais não me ligaram uma única vez porque não fazem ideia do que se está a passar."
A mobilização de pessoas através das redes sociais não foi bem acolhida pelo primeiro-ministro. Erdoğan declarou inclusive que "as redes sociais são uma fonte de problemas", e que aqueles que estavam a protestar não passavam de um grupo de delinquentes, marginais com ideias terroristas. Chegou ainda a ameaçar os manifestantes com a pena de morte, abolida na Turquia em 2002. Afirmou também que "para cada 100 000 manifestantes, trarei para as ruas 1 000 000 do meu partido." Erdoğan assegurou que não irá recuar e que mandará até construir uma mesquita junto ao centro comercial da praça Taksim.
Apesar de tudo, os manifestantes turcos parecem contentes. Parecem acreditar numa Turquia melhor, tolerante e democrática. Parecem apreciar o crescente sentimento de tolerância. Os adeptos de clubes de futebol rivais (quem conhece a sociedade turca sabe bem a intensidade desta rivalidade), os religiosos, os liberais, os esquerdistas, os nacionalistas, os gays, as prostitutas, os curdos, os alevis, protestam lado a lado e ajudam-se mutuamente. Os cartazes erguidos pelos manifestantes com o mote"uma árvore morre, uma nação acorda" é reveladora dos sentimentos das pessoas que inundam as ruas turcas nos dias que correm.


(Fonte: Selin Turkes/Expresso)

03 junho 2013

Protestos contra o Governo alastram

O primeiro-ministro turco, Recep Tayip Erdoğan, acusou o Partido Republicano do Povo, na oposição, de estar a manipular os manifestantes que ocuparam a principal praça de Istambul. A contestação alastra e o governante disse que não há "Primavera turca".
 
Os confrontos entre manifestantes e polícia prosseguiam esta segunda-feira, cuja madrugada foi muito violenta. A insurreição turca fez, entretanto, a primeira vítima. O sindicado dos médicos turcos anunciou a morte de uma pessoa por atropelamento, numa auto-estrada perto de Istambul por onde caminhavam manifestantes. A Reuters diz que o condutor do automóvel se lançou contra os manifestantes, o El País conta que se tratou de um despiste de um taxista devido à presença de gente naquela via de circulação rápida.
Em comunicado, citado pela AFP, o sindicato atribuiu a morte do manifestante - um jovem membro de uma associação de esquerda - à "intransigência" do primeiro-ministro e à brutalidade que as forças da ordem estão a pôr na repressão dos protestos.
À medida que os protestos alastram, a repressão é maior. Em Ancara, onde também já se realizam manifestações contra Erdoğan, a polícia lançou esta tarde gás lacrimogéneo contra a população nas ruas.
Os protestos na Turquia começaram há sete dias - entram pois na segunda-semana - e a violência eclodiu há quatro. O motivo imediato desta onda de indignação popular foi o anúncio de que o parque Gezi, junto à praça central de Taksim, em Istambul, seria destruído para ser reconstruída uma caserna militar otomana com um centro comercial no interior. Isso foi apenas o gatilho que fez disparar a fúria contra as políticas conservadoras e islamizantes do Governo e o ímpeto de lançamento de projectos faraónicos em Istambul.
Erdoğan, classificando os manifestantes de "franja extremista", atacou a oposição. "O maior partido da oposição, que todos os dias apela a que se faça resistência nas ruas, está a provocar estes protestos", disse o primeiro-ministro que, no domingo, numa intervenção que passou na televisão turca, considerou as redes sociais um perigo.
Disse ainda haver suspeitas de que há "estrangeiros por detrás das manifestações, e que os serviços secretos turcos vão investigar se há "interferências de potências estrangeiras" nos protestos. "Não é possível revelar os seus nomes, mas vamos encontrar-nos com os líderes", assegurou Erdoğan, citado pelo site em Inglês do jornal turco Hurriyet.
As redes sociais estão também a ser visadas pelos dirigentes turcos: "Agora há uma ameaça chamada Twitter. E os melhores exemplos das mentiras [da oposição] estão ali. Para mim, as redes sociais são a maior ameaça à sociedade", tinha dito o primeiro-ministro no domingo à noite.
 
Claques unidas
Para acolher os que ficaram feridos durante a madrugada e já no período da manhã, mesquitas, lojas e a universidade foram, segundo a Reuters, transformadas em hospitais improvisados. O número de feridos não é exacto, mas uma associação médica disse que entre sexta-feira e a madrugada de segunda foram assistidos 484 manifestantes em hospitais de Istambul. A BBC diz que alguns hotéis também abriram as portas a estes feridos e nota que os protestos estão a criar uma unanimidade pouco habitual, com os adeptos dos clubes rivais — em Istambul não há rivalidade clubística, há ódio — a marcharem juntos.
Na origem deste descontentamento está a política de Erdoğan e algumas regras que o Governo aprovou nas últimas semanas e que, segundo os observadores, têm como finalidade islamizar a sociedade turca.
Recep Erdoğan, líder do Partido da Justiça e Desenvolvimento, é um conservador. O partido é de inspiração islâmica e está no poder há dez anos. Tem imposto uma visão moralista da sociedade que, apesar de maioritariamente muçulmana, é laica.
Recentemente, foi limitada a venda de álcool, assim como a publicidade a este produto. E numa estação de metro de Ancara foi transmitido um aviso sonoro dizendo a um grupo de adolescentes que lá se encontrava que os beijos em público são proibidos. As hospedeiras da Turkish Airlines foram proibidas de usar saias demasiado curtas e justas e baton vermelho. A revista Foreign Policy fala de uma vaga de neo-otomanismo na Turquia, de que faz parte um plano de construção de edifícios de grande envergadura, e o centro comercial da Praça Taksim fará parte desse plano.
Fontes oficiais citadas pela BBC indicam que os protestos de Istambul alastram ao resto do país. Nos últimos dias houve manifestações contra o governo em 67 cidades. Foram detidas 1700 pessoas, que na sua maior parte já foram libertadas. Imagens de televisão mostraram parte do edifício do AKP em chamas, em Izmir, mas a agência Doğan noticiou que os bombeiros dominaram o incêndio.
"Erdoğan não ouve ninguém", disse ao jornal britânico, The Guardian, Koray Calişkan, analista político de Istambul e professor na Universidade do Bósforo. "Nem sequer ouve os membros do seu partido. Mas depois destes protestos terá que aceitar que é o primeiro-ministro de um país democrático e que não pode governar sozinho".
 
Apelo da União Europeia
O risco de a violência subir de tom e de a Turquia se tornar um país em insurreição — e trata-se de um vizinho da Síria, país que está há mais de dois anos em guerra civil — levou os representantes da União Europeia e dos Estados Unidos a apelarem a Erdoğan para manter a calma e evitar a presença da polícia nas manifestações.
"Deve ser aberto um diálogo para se chegar a uma solução pacífica para o problema", disse a comissária europeia dos Negócios Estrangeiros, Catherine Ashton, citada pela Reuters. Uma porta-voz do Governo americano, Laura Lucas, fez apelo idêntico e pediu "um exercício de contenção" ao Governo turco.
Os protestos vão continuar, estando marcadas novas concentrações para esta segunda-feira. Erdoğan, por enquanto, mantém a sua agenda e nos próximos dias visitará países do Magrebe.
 
(Fonte: Público)


02 junho 2013

Erdoğan responde aos protestos com sarcasmo

No meio da maior vaga de protestos de uma década de Governo, o primeiro-ministro turco, Recep Tayyip Erdoğan, respondeu este domingo aos principais partidos da oposição que o acusam de se comportar como um ditador.
“Eles arrancaram as pedras da calçada e destuiram as montras das lojas. É isso a democracia? Dizem que Tayyip Erdoğan é um ditador. Eu não tenho nada a dizer quando se chama ditador a uma pessoa que se comprometeu a servir o seu país."
As palavras do chefe do Governo foram proferidas na capital, Ancara, uma das cidades onde milhares de pessoas sairam à rua e afrontarama polícia.
As manifestações continuam este domingo sem a mesma tensão dos dois últimos dias.
Na sexta-feira e no sábado cerca de mil pessoas foram detidas em 90 manifestações por todo o país. O número de feridos ronda os dois mil.
 
(Fonte: Euronews)

01 junho 2013

Presidente turco manda a polícia retirar-se da Praça Taksim

O Presidente turco, Abdullah Gül, interveio para que a polícia se retire da praça Taksim, onde se registam violentos confrontos, com recurso a canhões de água e gás lacrimogéneo contra os manifestantes que ocupavam o parque Gezi. Os manifestantes não querem que o parque seja demolido para dar lugar à reconstrução de uma caserna dos tempos do Império Otomano e à construção de um centro comercial – um projecto caro ao primeiro-ministro Recep Tayyip Erdoğan, que prometeu que não recuaria nas suas intenções e, em vez de mandar a polícia retirar-se, ordenou à multidão que "parasse imediatamente com os protestos". Erdoğan acusou os manifestantes de terem motivações "ideológicas e não ambientais", ao concentrarem-se no parque. O chefe do Governo do Partido da Justiça e Desenvolvimento – uma formação política conservadora de inspiração islâmica, no poder há dez anos – garantia que não desistiria do projecto de renovação da praça Taksim. Mas o chefe de Estado, que era do partido de Erdoğan até se candidatar à presidência, divulgou uma declaração escrita em que afirma que as forças de segurança deveriam agir de forma mais cautelosa do que o habitual, deveriam ser sensatos ao lidar com os manifestantes, e não deveriam permitir que acontecessem "cenas tristes", lê-se no site em inglês do jornal turco Hürriyet. A tensão tem vindo a crescer nos últimos cinco dias – desde que começou o movimento "Occupy Gezi", ao estilo dos que desde 2011 têm surgido um pouco por todo o mundo. Os manifestantes tomaram o parque em protesto contra a sua destruição, mas na sexta-feira a polícia desalojou-os à força, o que chamou ao local políticos da oposição, artistas e intelectuais, que se solidarizaram com o movimento, num protesto contra o Governo de Erdoğan, que tem imposto cada vez mais a sua moral conservadora e uma repressão cada vez intensa a uma sociedade que, embora sendo de maioria muçulmana, é laica. Após confrontos ao princípio da noite em Istambul e noutras cidades, como Ancara, o sábado amanheceu com novos confrontos com a polícia, que tentou dispersar a manifestação com gás lacrimogéneo e canhões de água. Os confrontos espalharam-se pelas várias ruas que saem da praça. A fúria é dirigida contra Erdoğan e o seu partido, que tem aprovado medidas vistas pelos sectores mais moderados como atentados à liberdade. Na semana passada foi aprovada uma lei que torna muito difícil o consumo de bebidas alcoólicas na via pública: a lei proíbe a venda de álcool depois das 22 horas e interdita a sua venda nos arredores de escolas e mesquitas. Foi aprovada em nome da saúde dos cidadãos, segundo o Governo, mas a oposição vê-a como tendo motivos religiosos. Houve também polémica sobre uma estação de metro de Ancara, onde um casal de namorados foi impedido de se beijar. Para este fim-de-semana estão programados também "protestos de beijos" em Istambul e Ancara. A oposição viu nestes gestos um possível sinal de que o Governo e a maioria no Parlamento estão dispostos a "islamizar" a sociedade turca e acusou o partido no poder de violar as liberdades individuais. Os manifestantes usam máscaras e lenços a tapar a cara e entoam cânticos como "Unidos contra o fascismo". Pedem a demissão do Governo de Recep Tayyip Erdoğan, descreve a agência Reuters, num dos movimentos de protesto mais expressivos contra o poder desde a tomada de posse, em 2002. Também as cidades de Ancara e Esmirna foram palco de manifestações na sexta-feira contra o Governo.
 
(Fonte: Público)