30 março 2007

O ministro turco da Cultura e Turismo sobre a inauguração de uma igreja arménia


O ministro da Cultura e Turismo, Atilla Koç, disse que o Governo turco, ao restaurar a Igreja de Aktamar, agiu em conformidade com a sua responsabilidade de proteger a herança histórica e cultural. Disse também que neste Verão as obras de consolidação das fundações da pequena e da grande igreja das ruínas históricas de Ani, localizadas na fronteira turco-arménia, perto de Kars, vão ser retomadas. Segundo o ministro, apesar dos repetidos pedidos da Turquia, a Arménia continua a operar uma pedreira no lado arménio da fronteira, ameaçando a estabilidade das ruínas de Ani.
Sublinhando que a Turquia tem uma grande riqueza cultural, e que ao longo da sua história os locais de culto de outras religiões foram sempre respeitados, Koç destacou que em vez de se considerar Ani como um “gesto relativamente à Arménia”, deveria antes pensar-se num esforço do Governo em levar a cabo a sua responsabilidade de proteger a herança histórica e cultural da Anatólia.
Sobre a recente controvérsia relativa à cruz original de pedra da igreja que ainda não foi colocada no local original, ou seja, no topo da igreja arménia de Aktamar, o ministro Koç diz que “isso não é um grande problema. Eu não posso dizer que vamos ter a cruz aqui amanhã, mas não vejo nenhum problema nisso. Essa questão só foi levantada há alguns dias, e ainda não foi avaliada por um conselho académico. Dêem-lhes tempo para discutirem esse assunto. Mas, em princípio eu não vejo razão para que não se tenha a cruz restaurada no topo da igreja, se sem ela a mesma ficar incompleta. Podemos nós aceitar não termos o crescente nas nossas mesquitas?”
O ministro sublinhou também que o restauro da igreja não se tratou de um gesto relativamente à Arménia. A abertura da igreja arménia da Cruz Sagrada na ilha de Aktamar, é entendida como um exercício de boa vontade, um esforço para mostrar que a Turquia não tem má vontade relativamente aos Arménios apesar dos muitos problemas políticos, disse o ministro.
“Eu tenho muitos amigos arménios e gregos dos meus tempos de escola, e sinto-me próximo da sua cultura,” disse Koç. “Nós não temos problemas com os Arménios da Turquia, o nosso problema é com os Arménios da diáspora.”
O restauro desta igreja foi rodeado de controvérsia, num momento em que o Congresso americano e outros estão a pressionar a Turquia a aceitar o alegado genocídio, as mortes e as deportações de grande parte da comunidade étnica arménia da Anatólia otomana. Por outro lado, a abertura desta igreja só aconteceu dois meses após o assassínio do jornalista turco-arménio Hrant Dink, um assassínio ainda com muitas questões por resolver.
Koç tornou claro estar a fazer o seu melhor para preservar as diversas heranças e tradições da Turquia, e para manter o sagrado afastado da política. “Nós permaneceremos ao lado da nossa riqueza cultural, sem olhar a que religião pertence,” disse. Referiu que a Turquia está a gastar e gastou largos recursos em restauros de sítios históricos, enquanto recuperações similares de mesquitas e de outros sítios muçulmanos na Grécia permanecem arruinados. Koç defende em particular o seu ministério, dizendo que está actualmente a conduzir trabalhos em 806 antigos teatros e sítios arqueológicos, que incluem muitas ruínas das culturas arménia e grega. “Todas as religiões e sítios religiosos são importantes para mim. Nós respeitamos todas as religiões, mesmo as pagãs,” disse o ministro, acrescentando que os artefactos históricos que decoram a Anatólia não são só uma herança para os Túrquicos, mas para toda a humanidade, e que o Governo decidiu assumir as suas responsabilidades.

Foi inaugurada como museu a igreja arménia de Aktamar


Depois de longos trabalhos de restauro, foi inaugurada como museu a igreja arménia Surb Khach (Igreja da Cruz Sagrada), localizada na pequena ilha de Aktamar, em Van, no sudeste da Turquia.
O restauro da Igreja de Aktamar e a sua inauguração tornou-se um assunto controverso, por causa das sensibilidades nacionalistas na Turquia e pelos pedidos da diáspora arménia para a sua abertura como local de culto e não como museu.
Mesmo na véspera da sua inauguração pelo ministro da Cultura, Atilla Koç, grupos ultra-nacionalistas organizaram um pequeno protesto em Van e clamaram que o partido do Governo (AKP), se tinha rendido às pressões americanas e arménias, restaurando e reabrindo a igreja.
Mais de 300 convidados, compostos por dignatários nacionais e estrangeiros, nomeadamente o ministro da Cultura arménio, Gagik Gyurgian, assim como o patriarca Mesrob II, líder espiritual da comunidade ortodoxa arménia na Turquia, e líderes de missões de muitas embaixadas creditadas em Ancara, compareceram à cerimónia de inauguração, que começou com um concerto de Tuluyhan Uğurlu.
Durante a cerimónia, o director dos trabalhos de restauro, Cahit Zeydanlı, foi agraciado pelo ministro turco da Cultura com uma placa.
Construído em 915-921, durante o reinado de Gagik I de Vaspurakan, este edifício é considerado um exemplar único da arquitectura arménia. No entanto, após o seu restauro, a igreja da Cruz Sagrada não apresenta a cruz de pedra que originalmente tinha no topo, nem o sino no campanário. Relativamente ao sino, o original está no museu arménio, na cidade iraniana de Tabriz. A ausência da cruz tem levantado alguma polémica.
Um enviado do Vaticano, assim como o patriarca Mesrob II, o líder espiritual da comunidade arménia ortodoxa na Turquia, elogiaram o restauro e inauguração da igreja, que disseram ser um passo que irá contribuir grandemente para a causa da paz e irmandade que todas as religiões têm tentado promover.
O patriarca disse ter pedido ao Governo para colocar a cruz de pedra original da igreja no topo da mesma, e para reconsiderar a abertura da igreja ao culto uma vez por ano, talvez no âmbito das festividades anuais de Aktamar, para que as pessoas possam pelo menos rezar por aqueles que contribuiram para a construção da igreja histórica. Disse que a reabertura da igreja depois de 90 anos é um evento cultural muito importante, e que Aktamar pode ser um importante pólo turístico e uma oportunidade importante de diálogo entre a Turquia e a Arménia.
Os dignatários da Arménia presentes na cerimónia, entraram na igreja com pequenas bandeiras arménias. Alguns dos convidados arménios benzeram-se no final da cerimónia, colocaram dezenas de velas que trouxeram da Arménia em várias partes da igreja e queimaram incenso. Por outro lado, quando o presidente da Câmara fez declarações, não disse qualquer palavra de boas-vindas ao ministro da Cultura arménio, Gagik Gürciyan, e ao patriarca arménio na Turquia. Ninguém da delegação Arménia foi chamada a intervir na cerimónia.
O ministro da Cultura da Arménia, revelou que uma mesquita antiga turca, em Yerevan ou noutra cidade, será restaurada como resposta a esta generosidade. Esta mensagem foi transmitida ao ministro turco da Cultura no dia da reabertura da igreja.
O ministro da Cultura da Arménia, disse que a reabertura da igreja de Aktamar, mesmo como museu, será um elemento que vai contribuir para a criação de uma atmosfera de confiança entre a Arménia e a Turquia.

24 março 2007

Mina do PKK mata três soldados turcos em Diyarbakır

Três soldados turcos foram mortos ontem e outros dois ficaram feridos, devido à explosão de uma mina colocada pelo grupo terrorista PKK na vila de Dicle, localizada na área sudeste da província de Diyarbakır.
Os soldados foram mortos durante confrontos com membros do ilegalizado Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), e outros dois ficaram feridos no mesmo confonto. No entanto, continuam as operações militares de larga escala na região.
Desde 1984 que o PKK tem vindo a desenvolver uma luta armada, que tem como objectivo a criação de um território étnico no sudeste da Turquia. Esta luta já causou a morte a mais de 30 000 pessoas.
Os acontecimentos de ontem seguiram-se às celebrações pacíficas do festival da Primavera de Nevruz. Este festival tem sido utilizado nos últimos tempos como palco de comícios políticos por simpatizantes do PKK.

22 março 2007

Novo embaixador da Turquia em Portugal: Ömer Kaya Türkmen

O presidente da República portuguesa, Aníbal Cavaco Silva, recebeu ontem as cartas credenciais de novos embaixadores em Portugal, nomeadamente do embaixador da Turquia, Ömer Kaya Türkmen, que assumiu o cargo em Janeiro deste ano.

21 março 2007

Turquia descontente por não ter sido convidada para o aniversário da União Europeia

O ministério dos Negócios Estrangeiros criticou a presidência alemã da União Europeia por não ter convidado os países candidatos à adesão para o aniversário do Tratado de Roma, dizendo ter-se perdido uma oportunidade para mostrar uma família europeia.
Numa declaração escrita, o porta-voz do ministro dos Negócios Estrangeiros, Levent Bilman, disse que se a Alemanha tivesse convidado todos os candidatos para participarem nas actividades do aniversário, teria sido um acto "significativo para mostrar a integridade da família Europeia.”
O embaixador da Alemanha na Turquia, Eckart Cuntz, disse que nenhum dos países candidatos foi convidado para a cerimónia, e que só líderes de Estado e de Governo dos países membros da União Europeia iriam participar.
No princípio deste mês, já se tinha sentido o desapontamento na Turquia, quando o primeiro-ministro turco, Recep Tayyip Erdoğan, não foi convidado para a celebração do 50.º aniversário do Tratado de Roma, planeado para o dia 25 de Março em Berlim.

18 março 2007

A plataforma Abant abordou o alevismo


A 13.ª Plataforma Abant, uma conferência onde intelectuais de diferentes áreas se reunem para encontrar um consenso relativamente a assuntos nacionais e internacionais, teve lugar no passado fim-de-semana para abordar vários aspectos do alevismo.
A plataforma, que acredita que os assuntos relativos à identidade na Turquia se encontram estanques devido a falta de informação e confusão, discutiu o alevismo em todas as suas vertentes. O alevismo é um ramo xiita do islamismo, praticado maioritariamente na Turquia.
O tema do encontro, "Dimensões Históricas, Culturais, Etnográficas e Contemporâneas do Alevismo", juntou intelectuais peritos nessas temáticas, representantes da Associação Alevi-Bektaşi (uma sub-seita do alevismo), assim como membros do Governo, tanto da Turquia como da Europa.
Foram abordados aspectos históricos, teológicos e sócio-culturais do alevismo, assim como as suas problemáticas actuais.
A plataforma, deu aos representantes alevitas a possibilidade de ouvir as necessidades e preocupações da comunidade alevita, e espera facilitar a avaliação e o início da abordagem destes temas. De igual modo, deu ênfase à necessidade de recursos informativos, analíticos e intelectuais para o diálogo entre diferentes grupos de fé, em conjunto com iniciativas que promovam empatia e compreensão.

12 março 2007

Sector da saúde em protesto


Cerca de 10 000 profissionais de saúde reuniram-se ontem em Ancara, em protesto contra as políticas do Governo relativas à saúde.
Integraram a manifestação representantes de vários sindicativos ligados à saúde, estudantes de medicina e representantes de clínicas locais. Empunharam cartazes onde se podia ler “saúde é direito”, “criem um orçamento para a saúde e não para o Fundo Monetário Internacional” e “FMI faz mal à saúde”.
A polícia adoptou intensas medidas de segurança durante a marcha de protesto, mas ocorreram pequenos incidentes.
Gençay Gürsoy, presidente do Sindicato dos Médicos Turcos, apelou aos cidadãos para não se deslocarem aos hospitais no dia 14 de Março, dia da Medicina. Disse também que iriam manifestar-se na quarta-feira pelo direito público à saúde e pelos direitos dos profissionais de saúde. No entanto, estará assegurado o atendimento de todos os casos urgentes.
Relativamente à lei dos médicos estrangeiros, teceu críticas às declarações feitas pelo primeiro-ministro, Recep Tayyip Erdoğan, que disse acreditar na necessidade de uma lei para os médicos estrangeiros. Por outro lado, elogiou o veto de alguns artigos por parte do presidente da República, incluindo os relativos à questão dos médicos estrangeiros.
Na semana passada, a Comissão Parlamentar para a Saúde revelou que iria proceder à alteração da lei que permitia aos médicos estrangeiros trabalharem na Turquia, acrescentando que a comissão foi persuadida pelos argumentos avançados pelo presidente Ahmet Necdet Sezer quando vetou essa lei.
A lei relativa aos médicos estrangeiros, entretanto vetada pelo presidente da República, caso fosse promulgada, iria permitir que os médicos estrangeiros pudessem trabalhar livremente na Turquia.

Foi interdito o bloqueio ao site "YouTube"

Na passada quarta-feira foi interdito na Turquia, por decisão do tribunal, o acesso ao site "YouTube", em virtude de estar a circular nesse site um vídeo que alegadamente denegria a imagem de Mustafa Kemal Atatürk, o fundador da Turquia moderna. Na sexta-feira, o tribunal cancelou a decisão, e foi reposto o acesso ao site depois do vídeo ter sido retirado de circulação.
A Türk Telekom, a principal fornecedora de internet na Turquia, bloqueou o acesso ao "YouTube", depois de ter recebido uma ordem do tribunal nesse sentido. Essa decisão surgiu na sequência da publicação de notícias na imprensa nacional, relativas a um vídeo posto a circular no site por um utilizador grego, e que alegadamente insultava o fundador da República turca, Mustafa Kemal Atatürk.
Atatürk, que proclamou a Turquia moderna em 1923, é visto como um herói nacional pelos Turcos seculares, e o seu legado está protegido por uma lei especial.
Nesse mesmo dia, o mesmo tribunal ordenou, depois de uma petição da Türk Telekom, que cancelaria a proibição se o vídeo fosse removido do site "YouTube".
A medida, de cancelamento do acesso ao site "YouTube" na Turquia, foi severamente criticada pela imprensa e pelo público em geral.
O site "YouTube" retirou o vídeo depois de ter recebido milhares de mensagens electrónicas com protestos de cidadãos turcos.
O vídeo causador da polémica surgiu no âmbito de uma "batalha" entre Turcos e Gregos que acontecia desde o início do ano nesse site da internet, com ambas as partes a colocarem vídeos e comentários insultuosos.

03 março 2007

Protestos no 10.º aniversário do "golpe pós-moderno"


Esta semana a Turquia lembrou o 10.º aniversário do seu "golpe pós-moderno", quando o Exército forçou o Governo da altura a abandonar o poder por o considerarem demasiado islâmico.
Muitas pessoas concentraram-se na Praça Beyazıt na região de Eminönü, em Istambul, na quarta-feira, para protestarem contra o processo que levou à demissão do 10.º Governo turco, e para pedirem o julgamento dos responsáveis. A concentração foi organizada pela Associação de Direitos Humanos e Solidariedade para Pessoas Oprimidas (MAZLUM-DER). O porta-voz do grupo, ligado à defesa dos direitos religiosos, descreveu o golpe como uma guerra total contra o povo turco, dizendo ter-se tratado de "um ataque contra os direitos e liberdades”.
Em 28 de Fevereiro de 1997, o Exército ocupou o Conselho Nacional de Segurança e remeteu uma lista de pedidos ao primeiro-ministro Necmettin Erbakan, que tinha irritado os secularistas com o convite de sheiks religiosos para a sua residência e com o estreitamento de relações com a Líbia e o Irão. Poucos meses depois Erbakan e o seu Governo abandonaram o poder sob pressão militar e presidencial.
Entre os pedidos remetidos ao Governo, constava a supressão do uso do véu islâmico nas universidades, que já estava em vigor na altura mas raramente imposto, e variadas restrições nas escolas secundárias vocacionadas para a formação de imames.
Sibel Kodakoğlu, que foi demitida da Universidade Boğaziçi depois da supressão do uso do véu islâmico em 1998, revelou que “naquela altura crianças e jovens, que deviam estar a ouvir os professores nas aulas, eram levados para a prisão”.

24 fevereiro 2007

Foi preso o político curdo Hilmi Aydoğdu


O político curdo Hilmi Aydoğdu foi preso na sexta-feira por ter declarado que os Curdos da Turquia insurgir-se-ão contra o Estado, se a Turquia atacar a população curda que vive em Kirkuk, no norte do Iraque.
A polícia deteve Hilmi Aydoğdu, líder da delegação de Diyarbakır do Partido (pró-curdo) da Sociedade Democrática (DTP), quando este abandonava uma conferência. O gabinete da Procuradoria em Diyarbakır, no sudeste da Turquia, delegou o caso para o tribunal da cidade, onde o juíz decretou a prisão por "incitamento ao ódio e hostilidade", um crime punível com pena de prisão até três anos, de acordo com o Código Penal turco. Os advogados de Aydoğdu apelaram ao tribunal para a sua libertação imediata. Também a Associação dos Direitos Humanos (İHD) disse que esta prisão era "inaceitável" e um ataque à liberdade de expressão.
Em declarações publicadas em vários jornais turcos, Aydoğdu avisou a Turquia relativamente à adopção de qualquer medida contra a cidade de Kirkuk. A Turquia tem combatido a violência separatista do ilegalizado Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK) há mais de duas décadas e expressou preocupação de que os grupos curdos do Iraque pudessem controlar essa cidade e incorporá-la na região que dominam. Houve até quem sugerisse que Ancara devia organizar uma operação militar para prevenir esse facto. “As duas partes desta guerra seriam a Turquia e os Curdos no Iraque. Existem cerca de 20 milhões de Curdos na Turquia, e os 20 milhões de Curdos iriam olhar para essa guerra como um ataque contra eles.” Os jornais citaram estas declarações de Aydoğdu.
A Turquia está preocupada que os Curdos do Iraque queiram usar os dividendos do petróleo de Kirkuk para sua independência, facto que encorajaria o PKK na Turquia, que luta pela autonomia curda desde 1984, conflito onde já perderam a vida cerca de 37 000 pessoas.
A Turquia não parou as incursões militares no Iraque para deter membros do PKK, apesar dos avisos de Washington que receia que essas acções possam criar tensões com os grupos curdos do Iraque que têm sido aliados importantes dos Estados Unidos.
As autoridades turcas acusam frequentemente o DTP de ter ligações com o PKK, listado como organização terrorista pelos Estados Unidos e pela União Europeia.

20 fevereiro 2007

Escritor curdo Mehmet Uzun foi homenageado em Istambul



Dezasseis escritores e editores da Suécia, Noruega e Turquia, prestaram tributo ao escritor curdo Mehmet Uzun com uma conferência na Universidade Bilgi, em Istambul.
Mehmet Uzun, que é Curdo mas cidadão turco, passou 15 anos no exílio, na Suécia, onde iniciou a sua longa caminhada para a criação de uma tradição literária curda.
Durante esta conferência, que durou um dia, os oradores apontaram os problemas enfrentados pelos autores que tiveram de deixar as suas culturas e países, e destacaram o estatuto de Mehmet Uzun, como o mais importante escritor da literatura moderna curda.
O escritor Eugene Schoulgin, que foi presidente do comité internacional dos escritores presos entre 2000 e 2004, abordou as dificuldades de se ser escritor no exílio e de se ter memórias de um país natal, ao mesmo tempo que se tenta adaptar a um país novo. Schoulgin concluiu: “Para Mehmet Uzun, eu penso que a sua vida no exílio lhe deu tanto quanto lhe tirou, mas ele é a prova viva de que nada pode impedir um verdadeiro escritor de criar, desde que continue a lutar contra as barricadas, que tanto podem ser criadas por poderes intelectualmente inferiores, ou pela sua própria mente misteriosa.”
Mehmet Uzun falou no final da conferência, dizendo que não estava acostumado a presidir a encontros deste género, porque no passado as suas palavras e obras tinham sido discutidas em esquadras de polícia, gabinetes de advogados e tribunais. Destacou que escreveu sempre sobre “o vencido e o oprimido”.
Durante os 15 anos de exílio na Suécia, Uzun escreveu muitos romances e ensaios em Curdo, Turco e Sueco, mas quando os seus trabalhos começaram a ser publicados na Turquia, as autoridades turcas abriram casos na justiça contra ele. Mehmet Uzun foi absolvido de todas as acusações.
Na passada Primavera foi-lhe diagnosticado cancro, e os médicos que o acompanhavam não lhe deram mais esperanças. Contudo, quando voltou à Turquia de avião e numa maca por estar demasiado fraco, continuou o tratamento em Diyarbakır, no sudeste da Turquia, e começou a melhorar. Ele próprio apelida a sua recuperação de “milagrosa”, e realçou o facto de estar "determinado a continuar a escrever sobre os vencidos e oprimidos”.
Uzun tem estado a trabalhar num romance baseado na vida de Erich Auerbach. Antes de lhe ter sido diagnosticado cancro, revelou que tinha completado a fase preliminar do trabalho e que iria começar a escrever o livro. Auerbach, um filólogo judeu, escapou à Alemanha nazi e passou anos a ensinar na Universidade de Istambul. O seu livro mais conhecido, "Mimesis", analisa a representação da realidade na literatura ocidental. Ao longo da sua jornada tem chamado a atenção múltiplas vezes para a importância de um escritor ser livre de ideologias, governos e pontos de vista oficiais. Nesse contexto, Uzun disse que “para a salvação do homem e da humanidade, têm de existir condições de justiça, perdão, consciência, igualdade e liberdade.” Destacou igualmente que um escritor tem de confiar nesses valores.
No fim da conferência, Uzun recebeu uma grande ovação e depois autografou livros e posou para os fotógrafos.



Da vasta audiência presente nesta conferência, fizeram parte várias figuras ligadas à literatura, como escritores e académicos, de entre os quais o grande escritor turco Yaşar Kemal e a sua esposa Ayşe Semiha. Uzun chama a Kemal, que foi várias vezes nomeado para o prémio Nobel da Literatura, o seu pai espiritual. Ele próprio também já foi nomeado para o prémio Nobel da Literatura.
A conferência foi patrocinada pelo Departamento de Literatura Comparada da Universidade Bilgi e pelo Comité Sueco Mehmet Uzun, com o apoio do Consulado Geral Sueco em Istambul.
O assunto da sessão da manhã foi “escrever numa linguagem pautada por obstáculos”. Também foram analisados exemplos e contributos das obras de Mehmet Uzun, no âmbito da relação entre a linguagem e a literatura. A segunda sessão começou com a questão: “O que aconteceu ao contador de histórias?”. Foi focada a atenção nas tradições da literatura oral e no contador de histórias como o personagem básico nos romances de Uzun. Os oradores da conferência foram Eugene Schoulgin, Thorvald Steen, Necmiye Alpay, Seyhmus Diken, Asli Erdoğan, Muhsin Kizilkaya, Bjorn Linnell, Per Erik Ljung, Azar Mahloujian, Jonas Modig, Maria Modig, Jale Parla, Gellert Tamas, Belim Temo, A. Omer Turkes e Ragip Zarakolu.

17 fevereiro 2007

Está confirmada gripe das aves em três aldeias do sudeste da Turquia


A gripe das aves continua a avançar no sudeste da Turquia, com a confirmação do vírus em três aldeias, perto das cidades de Diyarbakır e Batman. Após a confirmação da presença do vírus foram abatidas 340 aves.
Após a morte suspeita de vários animais em duas aldeias do sudeste da Turquia, Kocalar e Akoba, foram realizadas análises a várias aves, e os habitantes dessas aldeias foram imediatamente colocados em quarentena.
As autoridades dizem que foram tomadas todas as precauções necessárias, e que as aldeias estão a ser desinfectadas por várias equipas.
Uma mulher de 67 anos, suspeita de ter contraído o vírus da gripe das aves, está também a ser acompanhada. Esta mulher, residente na aldeia de Doluca na província de Batman, sentiu-se doente há uma semana e deu entrada no hospital na passada quarta-feira. A aldeia desta mulher fica situada perto da aldeia de Esentepe, uma das três aldeias onde as autoridades confirmaram a presença do vírus H5N1. A área em redor das três aldeias foi colocada em quarentena e foi iniciado o abate de animais, assim como a realização de análises aos habitantes dessas aldeias. Foram hospitalizadas sete outras pessoas que recearam ter contraído o vírus, mas tiveram alta rapidamente, uma vez que os resultados dos seus testes foram negativos. Entretanto, ocorreu na província de Konya outro caso suspeito de gripe das aves, onde um homem que apanhou um pato e o comeu em casa com os seus filhos foi para o hospital com febre alta e sintomas semelhantes aos da gripe das aves. Contudo, os resultados dos testes realizados a este homem ainda não confirmaram tratar-se de um caso de gripe das aves.

12 fevereiro 2007

Começou a "Operação Şafak" contra o PKK

As Forças Armadas turcas iniciaram a "Operação Şafak", contra o PKK. Esta operação começou hoje no sudeste do país, mais concretamente na cidade de Tunceli, assim como nas suas imediações.
As forças militares estão a usar helicópteros Sikorsky e estão a realizar escutas telefónicas aos elementos do PKK, especialmente entre os elementos que estão fora de Tunceli e os que estão no norte do Iraque.
Os bombardeamentos começaram esta manhã nos vales de Apanos e Kutu, com forças militares especialmente treinadas para as condições especiais de Inverno a lutarem no terreno.
A neve, nesta região, chega a atingir os dois metros de altura.

29 janeiro 2007

Advogado termina greve de fome ao fim de 293 dias


O advogado Behiç Aşçı, terminou uma greve de fome de 293 dias, depois do Governo turco ter decidido diminuir o isolamento dos presos políticos.
Behiç Aşçı, de 40 anos, terminou a greve de fome e concordou ser levado para um hospital de Istambul para fazer tratamento, depois do ministro da Justiça ter despachado um decreto na passada segunda-feira, a duplicar o tempo de socialização dos presos nas cadeias turcas de segurança máxima.
Na Turquia, quem utiliza a greve de fome como forma de protesto, geralmente bebe chá e água com sal ou açúcar e toma vitaminas para prolongar o tempo do protesto. O protesto deste advogado visou forçar o Governo a melhorar as condições nas prisões de tipo F, onde os acusados de crimes e de terrorismo são encarcerados em celas destinadas a uma a três pessoas. O porta-voz do Parlamento turco, Bülent Arınç, tinha prometido no mês passado à família de Behiç Aşçı rever as condições dessas prisões.
No momento em que Aşçı foi transportado para o hospital, dezenas de apoiantes gritaram que a sua luta contra o sistema das prisões de alta segurança iria continuar.
Na passada segunda-feira, o ministro da Justiça duplicou de cinco para dez horas por semana o tempo em que os presos se podem encontrar, e aumentou de quatro para dez o número de presos que podem estar juntos durante o tempo de socialização. Para os activistas de direitos humanos esta decisão não é suficiente, e pedem a abertura permanente das portas que ligam cada três celas, de forma a permitir maior socialização.
As prisões de tipo F causaram controvérsia desde que foram criadas em 2000, com críticos a dizerem que promovem o isolamento dos presos e os tornam vulneráveis aos maus tratos por parte dos guardas prisionais.
A criação do novo sistema nas prisões turcas provocou revoltas dos presos, com soldados a usarem armas de fogo e gás para conseguirem transferir os presos para as novas celas. Os presos responderam com armas de fogo e alguns atearam fogo a si próprios, tendo morrido 32 prisoneiros e dois soldados durante os confrontos. Outras 68 pessoas, incluindo presos e os seus apoiantes, morreram à fome em resultado de uma greve de fome rotativa levada a cabo por 2000 presos durante o auge do protesto que esmoreceu em 2003.
Aşçı é um advogado de membros do Partido/Frente Revolucionária de Libertação Popular(DHKP-C), um grupo de resistência de extrema esquerda considerado organização terrorista por Ancara e que foi responsável pela organização dessa greve de fome em massa.
O ministro da Justiça, Cemil Çiçek, expressou no Parlamento o seu agrado pelo fim da greve de fome de Behiç Aşçı. “Um ser humano nunca deveria ser colocado numa posição de arriscar a sua vida para mostrar que algo está errado. Não é correcto seguir alternativas tão drásticas, quando existem caminhos melhores para resolver um problema. Existem muitas maneiras para mostrar que algo está errado num país democrático. Arriscar uma vida humana é a última coisa que queremos. A vida humana é importante para nós.”

28 janeiro 2007

O último adeus a Hrant Dink


Na passada terça-feira realizou-se o funeral do jornalista Hrant Dink. Foi acompanhado, na sua última viagem pelas ruas de Istambul, por milhares de pessoas e por uma nuvem de pombas brancas.
Desde o princípio da manhã, muitas pessoas foram-se juntando à porta do jornal "Agos", para depositarem velas e cravos vermelhos em redor dos seus retratos, e também para escutarem as palavras da sua esposa, Rakel Dink, que, rodeada pelos três filhos do casal, leu uma carta de despedida ao marido.
Depois da cerimónia no jornal "Agos", teve início o lento cortejo com cerca de 200 000 pessoas, uma marcha de oito quilómetros até à igreja arménia da Virgem Maria. A multidão caminhou a maior parte do tempo em silêncio, e muitas pessoas empunhavam pequenos cartazes negros onde se lia "somos todos Hrant Dink", "somos todos Arménios", “assassino 301”. Muitos dos cartazes estavam escritos em Turco, mas também era visível um número significativo de cartazes escritos em Curdo e Arménio.
Às 14 horas realizou-se a cerimónia religiosa na igreja arménia da Virgem Maria, celebrada pelo arcebispo Sahan Sivaciyan, e com a participação do patriarca arménio Mesrob II, que proferiu algumas palavras muito emocionadas. O Governo esteve representado pelo ministro do Estado e vice-primeiro-ministro, Mehmet Ali Şahin, e pelo ministro do Interior Abdulkadir Aksu. O primeiro-ministro turco não compareceu, porque a cerimónia fúnebre coincidiu com a visita do primeiro-ministro italiano, Romano Prodi, à Turquia. Também estiveram presentes muitos deputados do Parlamento turco e líderes de partidos políticos, nomeadamente o deputado do Partido da Justiça e Desenvolvimento (AKP, no Governo) Nusret Bayraktar, o presidente do Partido da Esquerda Democrática (DSP) Zeki Sezer, e o líder do Partido Terra Mãe (ANAVATAN), Erkan Mumcu. O anterior presidente da Câmara Municipal de Istambul, Ali Müfit Gürtuna, o líder da comunidade judaica, Ishak Haleva, artistas e figuras eminentes da vida cultural turca, nomeadamente os escritores Elif Şafak e Can Dündar, também marcaram presença. Estiveram igualmente presentes várias personalidades internacionais, como foi o caso do chefe das igrejas arménias da Roménia e Bulgária, Gatağigos Karatekin II, os representantes religiosos dos Arménios na América, Diyayr Sırpazan Mardikyan e Viken Sırpazan, Claudia Roth do Partido Verde alemão, entre outros. Depois do serviço religioso, seguiu-se novo cortejo, desta vez para o cemitério arménio Balıklı, em Zeytinburnu.

23 janeiro 2007

As "ofensas" de Hrant Dink à "identidade turca"



Hrant Dink escreveu uma série de artigos nos quais apelava aos Arménios da diáspora para pararem de se preocupar com os Turcos e se preocuparem em vez disso com a felicidade da Arménia, de acordo com uma jornalista do jornal "Agos". Ainda segundo a mesma fonte, Hrant Dink disse aos Arménios que a sua inimizade para com os Turcos "tem o efeito de envenenamento do seu sangue". O tribunal terá interpretado este artigo fora de contexto, assumindo erradamente que ele queria dizer que o sangue turco é venenoso.
Em 7 de Outubro de 2005, Hrant Dink foi condenado, de acordo com o artigo 301 do Código Penal turco, por "insulto à identidade turca". Dink anunciou que iria recorrer da sentença, acrescentando que abandonaria o país se a condenação não fosse anulada. Foi condenado a uma pena suspensa de seis meses, o que significa que se voltasse a repetir a ofensa seria condenado a uma pena de prisão. Dink viveu na Turquia durante toda a sua vida, e na altura da condenação apareceu na televisão em lágrimas, negando as acusações de que era alvo, e prometendo combatê-las. Nessa altura Dink disse: “Vivo juntamente com os Turcos neste país e estou em completa solidariedade com eles. Penso que não poderia viver com o facto de os ter insultado." O tribunal disse que o artigo de Dink "não era uma expressão de opinião com o objectivo de criticar, mas era considerado insultuoso e ofensivo". Dink disse que a sentença se tratava de uma tentativa para o calar. "Mas eu não me calarei," disse. "Enquanto viver aqui, continuarei a dizer a verdade, tal como sempre fiz." Dink disse que iria apelar para o Supremo Tribunal da Turquia e para o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos, se necessário. "Se é um dia ou seis meses ou seis anos, tudo é inaceitável para mim," disse. "Se não for capaz de ter um resultado positivo, será honroso para mim deixar este país."
Em Dezembro de 2005, um tribunal turco abriu um novo processo contra Hrant Dink pelos comentários que fez relativamente à sentença anterior que lhe foi dada pelo tribunal por ter "denegrido a identidade turca". O processo foi aberto na sequência de uma queixa apresentada ao tribunal por um grupo de advogados nacionalistas, contra Hrant Dink e três outros jornalistas também do jornal "Agos", alegando que estes “tentaram influenciar o sistema judiciário" através dos seus artigos. O caso foi enviado para o Tribunal de Recurso. A Associação dos Advogados Nacionalistas pediu ao tribunal para abrir um processo contra os quatro jornalistas, que, a serem condenados enfrentariam uma pena de nove meses a quatro anos e meio de prisão. Dink disse nessa altura que estava no seu direito de criticar o veredicto anterior, acrescentando que levaria o caso ao Tribunal Europeu dos Direitos Humanos se o Tribunal de Recurso confirmasse a decisão.
Dink foi também julgado em 2006 por declarações que proferiu numa conferência de minorias e direitos humanos em 2002, em que criticou o hino nacional turco e o juramento diário feito pelas crianças turcas nas escolas primárias, que dizem: "Feliz é aquele que se chama a si próprio Turco”. Dink disse nessa conferência que não se sentia Turco, mas sim um Arménio que por acaso é cidadão turco. Também criticou nessa altura uma frase do hino nacional turco que diz: "Sorri para a minha raça heróica", dizendo que a ênfase dada à raça era uma forma de discriminação. Hrant Dink seria condenado a três anos de prisão se fosse considerado culpado das acusações de que foi alvo. Explicando as declarações que proferiu nessa conferência, disse que se tratou de uma resposta a uma questão sobre o que sentiu quando, na escola primária, teve de dizer a frase com a qual se iniciam as aulas. O verso patriótico que todas as crianças do ensino primário têm de memorizar e recitar na Turquia, começa assim: "Eu sou Turco, sou honesto, sou trabalhador”. "Eu disse que era um cidadão turco, mas que era Arménio, e que embora fosse honesto e trabalhador, eu não era Turco, mas sim Arménio," Dink explicou. Disse que também criticou uma linha do hino nacional turco que fala sobre "a minha raça heróica". "Eu disse que não gostava de cantar essa parte, porque sou contra o uso da palavra raça, que leva à discriminação," disse Dink.