07 dezembro 2006

As mulheres turcas conquistaram o direito de voto há 72 anos


Há 72 anos, a 5 de Dezembro de 1934, as mulheres turcas conquistaram o direito de voto e o direito de serem eleitas para cargos políticos. Na passada terça-feira, mulheres de todo o país, juntaram-se para comemorar o aniversário deste importante evento na história da Turquia.

A Assembleia do Conselho de Mulheres da cidade de Antália, iniciou as celebrações com a colocação de flores no monumento de Atatürk, na Praça da República dessa cidade. Os deputados de Antália pelo Partido Republicano do Povo (CHP), Tuncay Ercen e Hüseyin Emekçioğlu também estiveram presentes na cerimónia.
A porta-voz da Assembleia das Mulheres, disse que apesar dos previlégios que lhes foram concedidos, a representação das mulheres turcas no poder local e no Parlamento é ainda insignificante. Estas mulheres pediram a introdução de uma quota de pelo menos 30 por cento na Lei dos Partidos Políticos, para facilitar a participação activa das mulheres (cerca de 51 por cenmto da população turca) na política.
Numa declaração, a deputada do CHP por Adana, Nevin Gaye Erbatur, disse: “Hoje estamos a combater uma mentalidade que tenta puxar as mulheres para casa, em vez de as integrar na sociedade.” A sua declaração destacou a representação das mulheres no Parlamento de 4,6 por cento em 1935, e de unicamente 4,4 por cento actualmente. Disse também que, apesar de 36 por cento dos professores universitários, 31 por cento dos arquitectos e mais de 50 por cento dos dentistas serem mulheres, elas parecem incapazes de aceder a posições administrativas. "Apesar de terem passado 72 anos, as mulheres ainda não têm uma posição satisfatória no Parlamento," disse Erbatur, acrescentando que a principal razão, é o facto da política ainda ser considerada como uma arena dominada por homens. Erbatur disse ainda que queria ver mulheres no CHP, não como convidadas, mas como parte do "staff" político.
Em Aydın, o reitor da Universidade Adnan Menderes, Şükrü Boylu, elogiou os direitos atribuídos às mulheres em 1934, como uma conquista fundamental contra uma mentalidade regressiva e tradicionalista.
O líder do Partido da Terra Natal (ANAVATAN), Erkan Mumcu, numa reunião do seu partido na passada terça-feira, também congratulou o 72.º aniversário do sufrágio das mulheres, sublinhando que as mulheres, que correspondem a 51 por cento da população, estão escassamente representadas no Parlamento turco. Mumcu disse que representar as mulheres só com 24 deputados é injusto: “Excluir as mulheres da vida social é uma grande injustiça e também improdutivo.” Destacou também que uma discriminação deste tipo tem de terminar o mais rápido possível.
O ministro do Interior, Abdülkadir Aksu, disse que o assunto dos direitos das mulheres é “uma luta que está a decorrer em paralelo com a aceitação da democracia como um estilo de vida.” O ministro disse: “Todos os nossos esforços estão relacionados com trazer a mulher para o lugar que merece na nossa sociedade.” Estas declarações foram proferidas numa reunião organizada pelo Fundo das Nações Unidas para as Populações (UNFPA), pela Fundação Sabancı para a Educação (VAKSA) e pela Associação para a Educação e Apoio de Candidatos Femininos (KA-DER), para avaliar os resultados de um projecto das Nações Unidas para melhorar e proteger os direitos das mulheres e raparigas. No seu discurso, Aksu disse ainda: “Assegurar igualdade entre homens e mulheres é geralmente aceite como justiça social. O nosso Governo, que está consciente disso, estabeleceu como objectivo fundamental, colocar as mulheres numa posição em que possam ter responsabilidades iguais às dos homens em todas as áreas.” Sublinhou igualmente que o Governo tem introduzido um grande número de regras para melhorar o estatuto social das mulheres.

Numa manifestação em Adana, para celebrar o aniversário do sufrágio e do direito de serem eleitas para cargos políticos, algumas mulheres reagiram adversamente quando o líder distrital do Partido do Movimento Nacionalista (MHP), Hasan Yaman, se juntou às comemorações, dizendo: “Este não é um lugar para políticos. É errado um político do sexo masculino participar numa actividade de mulheres.”
Um grupo de mulheres da Assembleia do Conselho de Mulheres da cidade de Adana e do KA-DER, reuniram-se na Praça Uğur Mumcu e marcharam até ao Parque Atatürk, acompanhadas pela Banda Municipal Metropolitana.
Yaman abandonou o local depois de ter observado as comemorações do aniversário durante algum tempo.
A responsável pela filial do KA-DER em Adana, Lütfiye Görgün, disse que as mulheres não podiam celebrar com satisfação o aniversário, porque o direito de voto e de serem eleitas não estava a ser usado efectivamente, com as mulheres muito longe do objectivo estabelecido por Mustafa Kemal Atatürk, o fundador da nação. Görgün disse que "só 24 parlamentares, de um total de 550, são mulheres, o que mostra que de facto as mulheres não têm lugar na política. Temos uma grande população, mas não fazemos parte da administração do país. As mulheres que trabalham activamente nos partidos políticos não se tornam uma janela para o partido, tornam-se o seu cérebro! Nós queremos que pelo menos sete dos 14 deputados de Adana, sejam mulheres no próximo ano," disse.

04 dezembro 2006

Bento XVI: "Deixo parte do meu coração em Istambul"


O Papa Bento XVI terminou a sua visita à Turquia na passada sexta-feira, depois de ter estendido a mão aos muçulmanos e aos cristãos ortodoxos, mas mantendo no entanto uma posição firme relativamente à autoridade papal e às raízes cristãs da Europa.

Na sexta-feira de manhã, celebrou uma missa na Catedral do Espírito Santo em Istambul, onde também esteve presente o líder dos cristãos ortodoxos Bartolomeu I. Na quinta-feira, ambos tinham feito uma declaração conjunta, assumindo o compromisso de continuarem a trabalhar para unirem as suas igrejas, separadas desde o Grande Cisma de 1054.
O Papa usou também esta visita para diminuir o descontentamento dos muçulmanos, causado pelo discurso que proferiu em Setembro e que incendiou o mundo islâmico. Por essa razão, foi accionado o maior dispositivo de segurança de sempre na Turquia, mas os protestos foram escassos durante a sua visita.
O Papa pediu mais liberdade religiosa na Turquia e disse que o secularismo enfraqueceu as tradições cristãs.
Considerado pelos peritos católicos como mais conservador nos assuntos teológicos e menos interessado em criar laços com o Islão do que o seu antecessor, alguns sectores da igreja esperavam que ele adoptasse uma posição mais forte relativamente a esses assuntos.
Um dia depois de ter cumprimentado o Papa, o presidente turco, Ahmet Necdet Sezer, vetou parcialmente a Lei das Fundações, que se esperava que viesse aumentar os direitos de propriedade das minorias não muçulmanas que vivem na Turquia. Sezer vetou vários artigos da lei, vista como uma das mais significativas reformas da União Europeia.
O acontecimento mais importante da visita do Papa à Turquia, acabou por ser a sua deslocação à Mesquita de Sultanahmet (Mesquita Azul) e a sua atitude de reverência. O popular jornal diário turco "Hürriyet" escreveu: “Na Mesquita de Sultanahmet, voltou-se para Meca e rezou como um muçulmano.” Já o jornal diário "Akşam" publicou na primeira página: “A temida visita do Papa terminou com uma surpresa maravilhosa.” Os oficiais do Vaticano também caracterizaram a visita à mesquita como um gesto de reconciliação. O Papa tirou os sapatos, tal como é costume numa mesquita, e meditou silenciosamente, enquanto o mufti de Istambul rezava alto. Quando o mufti deu por terminada a oração, Bento XVI deteve-se por segundos, ainda voltado para Meca. O Papa Bento XVI tornou-se no segundo Papa da história a entrar numa mesquita, depois de João Paulo II também o ter feito numa mesquita de Damasco, em 2001. O porta-voz do Vaticano, Cardeal Roger Etchegaray, comparou a visita do Papa à mesquita, à visita de João Paulo II ao Muro das Lamentações, em Jerusalém, em 2000. “Ontem, Bento XVI fez com os muçulmanos, aquilo que João Paulo II fez com os judeus.”
Minutos antes de entrar num avião especial das linhas aéreas turcas no fim da sua primeira visita a um país muçulmano, o Papa disse ao governador de Istambul, Muammer Güler: “Deixo parte do meu coração em Istambul.” Disse também, antes da sua partida, que esperava que a sua visita pudesse contribuir para um "melhor entendimento" entre religiões.

02 dezembro 2006

Embaixadora da Turquia em Portugal comenta a viagem do Papa ao seu país

A embaixadora da Turquia em Lisboa vê a visita do Papa ao seu país como um sinal de apoio à entrada da Turquia na União Europeia.
Zergün Korutürk faz uma leitura essencialmente política da viagem do Papa, avaliando também a deslocação de Bento XVI como um reconhecimento do papel do seu país no diálogo entre civilizações. A diplomata lembra que o Papa destacou a importância da Turquia como ponte entre duas civilizações e deu, também, um contributo para essa ponte.

(Fonte: Rádio Renascença)

01 dezembro 2006

O Papa Bento XVI rezou na Mesquita Azul

O Papa Bento XVI pôs termo ontem, em Istambul, a semanas de especulação na imprensa turca sobre se iria ou não rezar no Museu de Santa Sofia. Em vez de ter parado para rezar na antiga igreja bizantina, o Papa escolheu rezar na Mesquita Azul, olhando para Meca.

Após uma visita ao Museu de Santa Sofia, o Papa foi recebido na Mesquita Azul pelo mufti de Istambul, Mustafa Çagrıcı, e pelo mufti de Eminönü, Muharrem Bilgiç. Deixou os sapatos à porta, e foi acompanhado pelo mufti Mustafa Çagrıcı na sua visita ao interior da mesquita.
O mufti explicou-lhe os rituais da religião islâmica, nomeadamente as funções do mihrab (nicho das orações) e do minber (púlpito), explicou-lhe os motivos decorativos dos tectos da mesquita, e depois convidou-o a juntar-se a ele num "momento de paz", olhando para o kible que está orientado para Meca. O Papa juntou-se a Çagrıcı imitando os seus gestos, e rezou.
Esta foi uma visita histórica, cheia de significado, e a segunda visita de um Papa a uma mesquita. A ida do Papa Bento XVI à Mesquita Azul, que inicialmente não fazia parte do programa da sua visita, está a ser entendida como um gesto de reconciliação com o Islão e como um acto de respeito para com o povo muçulmano.

O Papa parece ter recuado num eventual apoio à adesão da Turquia à União Europeia

O Papa Bento XVI salientou as “raízes cristãs” da Europa e olhou para as liberdades religiosas e direitos das minorias, arrefecendo um pouco as esperanças da Turquia relativamente a um eventual apoio do Vaticano à sua adesão à União Europeia. “Na Europa, ao mesmo tempo que existe uma abertura a novas religiões e aos seus contributos culturais, devemos unir os nossos esforços para preservar as raízes cristãs e as suas tradições e valores,” disse Bento XVI numa declaração conjunta com o patriarca dos Gregos ortodoxos Bartolomeu I, no terceiro dia da sua visita histórica à Turquia.
De manhã cedo, o Papa, secundado por Bartolomeu I, depois de uma missa na Catedral de São Jorge, disse num discurso, que “o processo de secularização tem enfraquecido a manutenção da tradição cristã na Europa. Face a esta realidade, somos chamados, juntamente com todas as comunidades cristãs, a renovar a consciência da Europa relativamente às suas raízes, tradições e valores cristãos, dando-lhes nova vitalidade.”
Com a ênfase dada às raízes cristãs da Europa, o Papa parece querer enviar sinais à Turquia muçulmana, candidata à entrada na União Europeia. No entanto, o Papa conquistou os corações dos Turcos com uma série de atitudes que adoptou desde a sua chegada, principalmente com o seu apoio à entrada da Turquia na União Europeia, segundo declarações do primeiro-ministro turco. “Nós não somos políticos, mas desejamos que a Turquia entre na União Europeia,” disse Erdoğan, citando o Papa numa conferência de imprensa após o encontro de ambos em Ancara.
O apoio de Bento XVI à entrada da Turquia na União Europeia foi aplaudido na Turquia, porque o apoio do Vaticano pode ajudar a melhorar significativamente a opinião pública relativamente à aceitação da Turquia na União Europeia. No entanto, discute-se agora na imprensa turca, nomeadamente no jornal diário "Cumhüriyet", se Erdoğan terá distorcido as palavras do Papa. O mesmo jornal acrescenta que o Vaticano não gostou das palavras de Erdoğan.
Na sua declaração conjunta com Bartolomeu I, o Papa disse que o respeito pela liberdade religiosa deve ser um critério para a adesão da Turquia à União Europeia, que deve assegurar que os seus membros respeitem os direitos das suas minorias religiosas. Esta declaração veio no seguimento das queixas do Patriarcado relativamente às restrições impostas pela Turquia, nomeadamente o encerramento de um seminário teológico, e a confiscação de várias propriedades às fundações cristãs. “Nós vimos de forma positiva o processo que levou à formação da União Europeia. Aqueles que estão envolvidos neste grandioso projecto não deveriam falhar no que diz respeito a levar em consideração todos os aspectos que afectam os direitos inalienáveis da pessoa humana, especialmente a liberdade religiosa. Em todos os passos relativos à unificação, as minorias devem ser protegidas, juntamente com as suas tradições culturais e com a distinção das características da sua religião,” acrescentou.
A União Europeia quer que a Turquia assegure total liberdade religiosa às suas minorias não muçulmanas. Isso significa dar-lhes um estatuto legal, incluindo os direitos de propriedade, para assim poderem operar livremente como instituições, e permitindo que tenham as suas próprias escolas.

O Papa Bento XVI na casa da Virgem Maria e no Patriarcado Grego Ortodoxo

Depois de ter passado o primeiro dia da sua visita em Ancara, o Papa Bento XVI seguiu para a vila de Selçuk, na província de Izmir, onde celebrou uma missa na casa da Virgem Maria, para um audiência de cerca de 550 pessoas, incluindo convidados do Sri Lanka, Ilhas Virgens, Estados Unidos, Alemanha, Espanha, Itália e Turquia. Depois das orações conjuntas com os crentes, o Papa fez um discurso que durou cerca de uma hora e meia, onde mencionou os seus dois antecessores que também visitaram o mesmo local: o Papa João Paulo VI e o Papa João Paulo II. Também referiu João Paulo XXIII, que antes de ser Papa, foi delegado apostólico na Turquia entre Janeiro de 1935 e Dezembro de 1944. Lembrando as boas relações do Papa João XXIII com os Turcos e a Turquia, o Papa Bento XVI citou palavras de João XXIII: "Eu amo os Turcos e admiro as suas qualidades." Também falou da importância da Turquia no mundo, como ponte entre culturas: "Constituindo uma ponte entre continentes, é vital que a paz e o bem-estar vivam em harmonia no seu solo." As úlltimas palavras do seu discurso foram em Turco: "Aziz Meryem, bizim için dua et (Virgem Maria, reza por nós)."

Depois o Papa Bento XVI rumou a Istambul para a Igreja do Patriarcado Grego Ortodoxo, a Igreja Aya Yorgi, onde participou numa celebração em sua honra. Aí, dirigindo-se a uma vasta audiência, disse: "Gostaria de dizer que gostei muito desta recepção tão fraterna por parte do Patriarcado Ecuménico, e que ficará sempre no meu coração. Agradeço a Deus termos sido abençoados com este encontro, que tem tanto significado e está cheio de boas intenções." O Papa mencionou também as relações entre a Igreja Católica e Ortodoxa e disse estar muito agradecido por estar neste momento em Istambul: "Estou muito agradecido por estar neste solo, que está tão ligado ao Cristianismo, e que foi a casa de tantas igrejas em tempos antigos."

30 novembro 2006

O Papa está a conquistar os Turcos

Ao terceiro dia, a visita do Papa Bento XVI à Turquia parece estar a ser muito mais construtiva do que o inicialmente previsto pelos comentadores mais pessimistas.
Embora o Papa tenha vindo à Turquia fundamentalmente para se encontar com o patriarca ortodoxo Bartolomeu I, tem estado igualmente disponível para construir algumas pontes com os muçulmanos. Nos meios de comunicação social turcos, as notícias e os comentários relativos à visita papal têm-se tornado cada vez mais positivos desde o momento em que o pontífice colocou os pés em solo turco.
Existem ainda círculos ressentidos com o discurso que o Papa proferiu relativamente ao Islão na Universidade de Regensburg, mas parecem ser marginais. A manifestação no passado domingo, em Istambul, sob o lema “Papa, não venhas!” foi tema de primeira página em numerosos jornais ocidentais, mas muitos deles não referiram que o partido que organizou aquela manifestação, o partido radical islâmico Saadet (Partido da Prosperidade), apenas conquistou 3 por cento dos votos nas últimas eleições.
A reconciliação do Papa com os muçulmanos começou com a recepção calorosa que recebeu por parte do primeiro-ministro turco, Recep Tayyip Erdoğan, logo à sua chegada. Erdoğan, um islamita moderado, deu uma conferência de imprensa depois do seu encontro com o Papa, na qual foi questionado sobre o discurso de Regensburg. “Sua Santidade expressou-me o seu respeito pelo Islão. Isto é de louvar, e nós olhamos para o futuro, não para o passado.”
Desde o primeiro momento, Bento XVI teve muitos outros gestos que os Turcos apreciaram. Em termos políticos, falou favoravelmente sobre duas causas importantes para a Turquia: disse que a nação muçulmana deveria ter um lugar na Europa, e que a questão de Chipre deveria ser resolvida pelas Nações Unidas, assunto que os Gregos querem que a União Europeia resolva, uma vez que estão incluídos nesse bloco, ao contrário da Turquia.
O facto do Papa estar de certa forma a apoiar a adesão da Turquia à União Europeia, cujas negociações entraram num período de abrandamento nos últimos tempos, tem sido particularmente aplaudida na imprensa turca.
Em Izmir, onde visitou a Casa da Virgem Maria, também disse palavras agradáveis à nação turca, começando o sermão com uma frase em Turco (“Meus queridos irmãos, que o Senhor esteja convosco”), e ostentou uma bandeira turca. O jornal diário conservador "Zaman", com grande número de leitores, descreveu esse acto como “Os gestos do Papa em Turco e a bandeira turca.” De acordo com outro diário turco, o "Hürriyet", o Papa tem feito “gesto após gesto.”
Relativamente ao Islão, Bento XVI tem tratado sempre esse assunto com respeito. O seu encontro e declaração conjunta com a autoridade muçulmana suprema do país, o líder do Directorado dos Assuntos Religiosos, Ali Bardakoğlu, foi um momento de reconciliação. O teólogo muçulmano declarou o Islão como sendo uma religiäo de paz e o seu convidado católico concordou.
Os estudiosos muçulmanos têm estado a debater as mensagens calorosas do Papa na televisão turca durante os últimos dias. A maioria deles destaca que utilizar frases insultuosas numa crítica ao Islão, como foi o caso do discurso de Regensburg, só contribuiu para piorar os problemas.
Num artigo intitulado "Como responder ao Papa", publicado no popular jornal diário islâmico "Yeni Şafak", o Dr. Ahmet Kızılkaya, um filósofo da Universidade de Ancara, criticou a reacção do mundo islâmico relativamente ao discurso de Regensburg: "Os muçulmanos deviam entender os argumentos filosóficos naquele importante discurso, e reponder com sabedoria, usando os instrumentos intelectuais da filosofia islâmica," argumentou.
Hüseyin Hatemi, um colunista do mesmo jornal e uma figura islâmista respeitada, escreveu um artigo intitulado “Boas vindas ao Papa!”, onde se lê que Bento XVI já se desculpou pelas suas declarações em Regensburg. “É por isso que eu agora gosto do Papa,” escreveu Hatemi, acrescentando, “ele destacou a nossa comunhão com o monoteísmo.” Hatemi terminou o seu artigo com uma saudação na linguagem do pontífıce: “Herzlich Willkommen, Bruder!"
E no encontro histórico de ontem com o patriarca ortodoxo, Bento XVI declarou a necessidade de revitalizar o Cristianismo, o que criou algumas preocupações na Turquia, devido à sua abordagem ecuménica. A declaração comum que os líderes das duas igrejas assinaram, realçou a irmandade cristã, mas também revelou a importância de “um autêntico e honesto diálogo inter-religioso.” Por outro lado, enquanto acentua a necessidade de “preservar as raízes cristãs da Europa," regista que o continente deve continuar “aberto a outras religiões e às suas contribuições culturais.”

28 novembro 2006

O mundo tem os olhos na visita do Papa à Turquia


O Papa Bento XVI chegou hoje à Turquia, às 13 horas locais, e foi recebido pelo primeiro-ministro turco no Aeroporto de Esenboğa, em Ancara. Contrariamente ao que estava previsto, pelo menos há dois dias, mas que ontem já parecia uma possibilidade, o primeiro-ministro turco Recep Tayyip Erdoğan, recebeu o Papa Bento XVI, embora no aeroporto e com partida prevista para Riga logo de seguida.
Os dois cumprimentaram-se e reuniram-se de imediato na sala vip do aeroporto, inicialmente na presença dos jornalistas, e depois à porta fechada durante cerca de 20 minutos. Erdoğan mostrou-se muito cordial, falando no seu empenho numa Aliança das Civilizações, projecto que lidera juntamente com o primeiro-ministro espanhol Zapatero, sob a alçada das Nações Unidas, e que tem como objectivo resolver as clivagens entre o Oriente e o Ocidente. Por outro lado, o Papa apelou a um diálogo verdadeiro entre cristãos e muçulmanos. Depois, Erdoğan deu uma conferência de imprensa e partiu para Riga, na Letónia, para comparecer na cimeira da NATO. Nessa conferência de imprensa, Erdoğan revelou que o Papa afirmou que o Islão é uma religião de paz, e lhe disse que apoiava a entrada da Turquia na União Europeia.
O Papa seguiu para Anıtkabir, o Mausoléu de Atatürk, o fundador da República turca, onde depositou uma coroa de flores e escreveu no Livro de Honra. Mais tarde foi recebido com uma cerimónia de Estado pelo presidente da República turco, Ahmet Necdet Sezer, no Palácio Presidencial, em Çankaya. Sezer e o Papa Bento XVI discutiram formas para melhorar o entendimento e cooperação mútuas, e trocaram opiniões sobre alguns tópicos regionais e internacionais.
Depois de se encontrar com o ministro do Estado e vice-primeiro-ministro, Mehmet Ali Şahin, reuniu-se com Ali Bardakoğlu, o director geral dos Serviços Religiosos e o mais alto líder religioso da Turquia. Ambos falaram de tolerância e de diálogo, com o Papa a lembrar que é preciso garantir a liberdade da minoria religiosa católica no país.
No geral, as minorias religiosas têm liberdade de culto na Turquia, mas são-lhes negados alguns direitos importantes. No caso concreto do catolicismo, não existe o direito de propriedade e os sacerdotes têm alguns problemas para conseguirem vistos de permanência no país. A Turquia é um país laico, com separação entre a religião e o Estado, mas tem controlo total sobre a religião, na medida, por exemplo, em que os discursos dos imames são "fabricados" no Directorado Geral dos Assuntos Religiosos. Ou seja, um imame não pode dizer o que entende durante um sermão numa mesquita. Os imames são funcionários públicos e estão dependentes desse organismo que tutela todos os assuntos religiosos na Turquia.

O Papa fez um longo discurso em nome da Aliança das Civilizações, dizendo que a Igreja Católica respeita os muçulmanos, tem muito respeito pelos Turcos e que a Turquia constitui uma ponte entre culturas. Teceu muitos elogios ao país e aos Turcos, o que contrastou com o que tinha dito enquanto cardeal Ratzinger, quando disse ser contra a entrada da Turquia na União Europeia, alegando que "seria um erro grave contra a maré da História." Tentou aliviar a tensão latente com o mundo muçulmano, dizendo que tem de haver reciprocidade entre os dois lados da ponte.
No âmbito da sua visita oficial a Ancara, o Papa recebeu chefes de missões diplomáticas na Embaixada do Vaticano, falando-lhes da importância de um verdadeiro diálogo com o Médio Oriente.
Desde que o Papa chegou, que não tem havido contestação nas ruas. Vive-se um clima de tranquilidade e de indiferença. O Papa está a ser bem recebido, com tapete vermelho à porta do avião, com comportamentos calorosos por parte das entidades oficiais e sem contestação por parte da população.
Erdoğan foi dos primeiros líderes do mundo muçulmano a criticar as polémicas declarações que o Papa proferiu, mas cumpriu todo o protocolo, contrariamente ao que o se esperava, uma vez que até já tinha avisado a Santa Sé de que não estaria presente durante a visita papal. A Turquia recebeu o Papa com a maior operação de segurança alguma vez operada no país, sendo mesmo superior àquela que protegeu George W. Bush quando este visitou a Turquia após a guerra do Iraque. Existe um polícia a cada cinco metros e a segurança ainda é mais apertada no perímetro da Embaixada do Vaticano. O líder da Igreja Católica está a ser protegido por 22 000 elementos de segurança.
Amanhã de manhã o Papa vai deslocar-se à cidade de Izmir, onde irá realizar uma cerimónia religiosa na Igreja da Virgem Maria, localizada na vila de Selçuk, na província de Izmir. Pensa-se que Maria viveu nessa casa com o Apóstolo São João, após a morte de Cristo. Actualmente esse edifício funciona como pequena igreja e constitui um centro importante de peregrinação católica. Após a celebração religiosa na Igreja da Virgem Maria, o Papa vai viajar nesse mesmo dia para Istambul, onde é aguardado no Patriarcado Grego Ortodoxo para uma celebração religiosa em sua honra e que contará com a presença importante do seu líder, o patriarca Bartolomeu I. Bartolomeu I foi o mentor do convite feito ao Papa para visitar a Turquia, oficialmente formulado pelo presidente da República turco. Este é um encontro muito importante, o encontro do Vaticano com a Igreja Ortodoxa, uma aproximação ao fim de 1000 anos, e um dos objectivos que o Papa Bento XVI estipulou para o seu pontificado. Pensa-se que poderão acontecer algumas manifestações quando o Papa se encontrar com Bartolomeu I, uma vez que este não pode utilizar o título de Patriarca Ecuménico, e não se sabe como é que o Papa se lhe vai dirigir. A utilização do título ecuménico colide profundamente com o laicismo instaurado na Turquia pelo seu fundador Atatürk. Para o dia 30 está prevista outra cerimónia religiosa na Igreja de São Jorge para a celebração da Festa de Santo André, o padroeiro da Igreja Ortodoxa. Também está prevista uma saudação a partir da varanda do Patriarcado e a visita à Mesquita Azul e ao Museu de Santa Sofia. O que o Papa irá fazer nestes dois monumentos tão simbólicos ainda não se sabe. Vai ainda realizar uma cerimónia religiosa na Catedral do Santo Espírito em Istambul, na sexta-feira, último dia da sua visita ao país.

26 novembro 2006

Erdoğan vai estar em Riga durante a visita papal

"Não podemos cancelar o nosso programa em Riga só por causa da visita do Papa à Turquia. Um grande número de representantes de Estado e de Governo vai estar em Riga, e nós temos a oportunidade de estar com eles," disse o primeiro-ministro turco Recep Tayyip Erdoğan na quinta-feira.
Em resposta às questões dos jornalistas durante o Fórum Económico Mundial que decorreu em Istambul, Erdoğan disse: "Existe uma disciplina estabelecida na diplomacia internacional. Atempadamente, o nosso ministro dos Negócios Estrangeiros informou o Vaticano de que a visita do Papa coincidia com a reunião da NATO em Riga, e perguntou se seria possível alterar a data da visita. O vice-primeiro-ministro Mehmet Ali Şahin vai representar-me. O Papa irá ser recebido igualmente pelo presidente Ahmet Necdet Sezer e por Ali Bardakoğlu, o representante dos Assuntos Religiosos. Lamentamos que existam tentativas para corromper os nossos esforços em criar uma aliança entre as civilizações. Temos sempre defendiado a liberdade religiosa." Quando lhe perguntaram se a questão de Chipre seria discutida na reunião da NATO, Erdoğan disse que não.

Elevadas medidas de segurança durante a visita do Papa

O Departamento de Segurança turco vai adoptar elevadas medidas de segurança em Istambul, Ancara e Izmir, durante a visita do Papa Bento XVI à Turquia na próxima semana.
Numa reunião que decorreu no ministério turco dos Negócios Estrangeiros na quarta-feira, foram decididas todas as medidas de segurança a adoptar durante a visita.
As maiores medidas de segurança serão tomadas no Aeroporto de Esenboğa, em Ancara, antes e depois da aterragem do avião onde viaja o Papa, que chegará cerca das 13 horas do dia 28 de Novembro.
Todo o percurso do Papa vai ser controlado periodicamente com detectores de explosivos. Para além dos seus guarda-costas, o Papa vai ser acompanhado por equipas de segurança turcas.
O Departamento de Segurança determinou três percursos diferentes a serem utilizados pelo Papa quando viajar do aeroporto até ao centro da cidade. Um veículo equipado com dispositivos de segurança irá escoltar o automóvel que o vai transportar.
Bento XVI vai visitar primeiro o Mausoléu de Mustafa Kemal Atatürk (Anıtkabir), e depois vai encontrar-se com o presidente Ahmet Necdet Sezer e com o ministro dos Assuntos Religiosos, Ali Bardakoğlu.
A partir do momento em que a visita do Papa passou a ser considerada crítica, devido às declarações que provocaram um mal estar no mundo islâmico, o Departamento de Segurança tem levou a cabo uma série de conversações com organizações não governamentais para tentar evitar protestos. Os protestantes não serão autorizados a aproximar-se das vias incluídas no percurso do Papa.
O Papa Bento XVI vai passar a sua primeira noite na Turquia na Embaixada do Vaticano, onde serão adoptadas apertadas medidas de segurança em todo o perímetro do edifício.
Foram destacados cerca de três mil polícias para garantirem a segurança do Papa em Ancara, durante as cerca de 20 horas da sua estadia na cidade.

23 novembro 2006

O Papa não vai rezar em Santa Sofia

Enquanto a Turquia se prepara para a visita do Papa Bento XVI, agendada para os dias 28 de Novembro a 1 de Dezembro, cerca de 40 nacionalistas turcos ocuparam ontem o Museu de Santa Sofia, em protesto contra a visita do Papa.
Os ocupantes rezaram no interior de um dos mais famosos monumentos de Istambul, mostrando a sua indignação relativamente à visita algo controversa do Papa a este monumento, que já foi uma igreja e depois uma mesquita, mas que actualmente funciona como museu, estando proibido o culto religioso no seu interior.
A visita do Papa acontece num momento político delicado, em que as relações da Turquia com a União Europeia se tornaram tensas.
Entretanto, o Vaticano já adiantou que o Papa não irá rezar em Santa Sofia, um facto que poderia causar muita polémica. Prevê-se que a comunidade cristã de Istambul receba o Papa na igreja ortodoxa de Santo Andreas e na igreja arménia dos Apóstolos. Durante a sua visita, o Papa Bento XVI irá encontrar-se com o patriarca grego Bartolomeu, e com Mesrob II, o líder religioso da comunidade arménia na Turquia.

19 novembro 2006

Ağca quer cumprimentar o Papa

Mehmet Ali Ağca, o atirador turco que alvejou o papa João Paulo II, apresentou uma petição ao tribunal para sair imediatamente da prisão, alegando que os cálculos da sua detenção estão incorrectos, e que deseja encontrar-se com o novo Papa quando este visitar Istambul.
"Eu não me conformo que estarei na prisão quando o Papa vier. Eu gostava de o cumprimentar em Santa Sofia juntamente com milhões de pessoas", disse Ağca, conforme citado pelo seu advogado Mustafa Demirbağ.
A visita do papa Bento XVI à Turquia está agendada para os dias 28 de Novembro a 1 de Dezembro. O programa inclui uma visita ao Museu de Santa Sofia, em Istambul, uma igreja do seculo VI transformada em mesquita quando os Otomanos conquistaram a cidade em 1453.
Ağca, de 48 anos, tem estado preso em Istambul desde a sua extradição de Itália em 2000.
A 12 de Janeiro deste ano foi-lhe concedida uma libertação antecipada, mas voltou a ser preso oito dias depois, quando um tribunal decidiu que a redução da sua sentença, à luz de leis de amnistia e de emendas ao código penal, tinha sido mal calculada. O seu período de detenção voltou a ser calculado, estando prevista a sua libertação a 18 de Janeiro de 2010.
Demirbağ insiste que a prisão de Ağca é ilegal, dizendo que entregou uma nova moção para a libertação do seu cliente.
Ağca alvejou o papa João Paulo II a 13 de Maio de 1981 na Praça de São Pedro, em Roma, ferindo-o gravemente. Os motivos do ataque são ainda hoje um mistério. O alegado envolvimento da União Sovietica e depois da Bulgária nunca foram provados.
Ağca é visto por muitos como um demente que afirma ser o “segundo Messias”, enquanto outros acreditam que ele é um operador dissimulado.
Ağca foi membro da organização de extrema-direita Lobos Cinzentos, e também foi indiciado na Turquia pelo assassinato do jornalista Abdi İpekçi e de dois roubos à mão armada nos anos 70.

Líderes da oposição pedem eleições antecipadas

Com a aproximação das eleições presidenciais, previstas para o próximo ano, os líderes da oposição aumentaram os pedidos de eleições gerais antecipadas, numa tentativa de bloquear o acesso do primeiro-ministro Recep Tayyip Erdoğan à presidência.
O líder do Partido Republicano do Povo (CHP), Deniz Baykal, apelou na sexta-feira à realização de eleições antecipadas, invocando que a população não quer Erdoğan como presidente da república. “Este facto não pode ser negado, mesmo pelas instituições próximas do Partido da Justiça e Desenvolvimento (AKP, no governo). Um parlamento prestes a sair, desgastado e no fim do mandato, não deveria eleger o presidente.”
Entretanto, o lider do grupo parlamentar do CHP, Ali Topuz, de visita ao líder do CHP em Aydın, também teceu duras críticas ao primeiro-ministro Erdoğan. Topuz deu uma conferência de imprensa na filial do partido em Aydın, dizendo que o acesso de Erdoğan à cadeira presidencial seria a última etapa das políticas que tem conduzido durante anos. Topuz avisou que os planos reais de Erdoğan incluem mudar a estrutura do tribunal constitucional de acordo com as suas ambições politicas, abusando dos poderes presidenciais. “Ele quer estruturar o Quadro da Educação Superior (YÖK) como bem entende. Ele quer resolver a disputa do véu islâmico a partir do palácio presidencial.” Acrescentou ainda que, se Erdoğan ou o porta-voz do parlamento, Bülent Arınç, forem eleitos para a presidência, a natureza da república secular e democrática vai mudar. “Todas as instituições da república vão sobreviver a isto. O presidente vai tornar-se disfuncional. Eles não podem governar o país como se fosse uma quinta. Eles não podem transformar a Turquia num Irão.”
Entretanto, o líder do Partido do Caminho Verdadeiro (DYP), Mehmet Ağar, que falou numa conferência regional do seu partido na cidade de Bursa, disse que o AKP não sobreviveu às suas promessas eleitorais, e acusou o CHP de polarizar propositadamente a sociedade em vez de desafiar o partido do governo. "A Turquia está a atravessar momentos difíceis e necessita de eleições antecipadas. O governo transformou a Turquia num país de ficções.” O líder do DYP disse que nunca se pode brincar com alguns dos valores da Turquia. “A Turquia tem certos valores que não podem fazer parte de debates eleitorais, não se pode brincar com eles. Esses valores fazem parte do regime republicano,” disse Ağar. Também referiu que as eleições gerais devem acontecer pelo menos no início de Março.

17 novembro 2006

O conflito israelo-palestiniano na agenda da Aliança das Civilizações

Segundo o plano de acção da Aliança das Civilizações, apresentado em Istambul na segunda-feira ao secretário-geral das Nações Unidas, Kofi Annan, a resolução do conflito israelo-palestiniano é a chave para a melhoria de relações entre o Islão e o ocidente.
O assunto israelo-palestiniano tornou-se o símbolo chave da divisão entre o ocidente e as sociedades muçulmanas e continua a ser uma das mais sérias ameaças à estabilidade internacional, declarou o grupo multinacional de académicos, políticos e líderes religiosos, no plano de acção da Aliança das Civilizações.
“Enquanto os Palestinianos viverem sob ocupação, expostos a uma frustração e humilhação diárias, e enquanto os Israelitas forem detonados em autocarros e em salões de baile, a ira continuará a ser inflamada por todo o lado”, disse Annan depois de receber o relatório, concordando que todos os esforços para a redução das tensões entre o Islão e o ocidente serão em vão, se não houver uma solução para esse conflito.
“O que está no centro da crescente ruptura entre o ocidente e o mundo islâmico, não são as diferenças de crença religiosa, mas a forma como os crentes se tratam uns aos outros”, disse também Annan. “Devemos começar por reafirmar e demonstrar que o problema não é o Corão ou a Torá ou a Bíblia.”
“A globalização tem propagado doenças antigas em todo o mundo, tais como a violência. Existe a necessidade de uma resposta global a essa ameaça global. A Aliança das Civilizações é essa resposta”, disse o primeiro-ministro turco Recep Tayyip Erdoğan na segunda-feira.
Por seu turno, Jose Luis Rodríguez Zapatero disse estar confiante no sucesso da iniciativa. “Algumas pessoas vêem a Aliança das Civilizações como uma utopia [...], mas existem no mundo real alguns exemplos de coexistência pacífica entre pessoas e civilizações,” disse.

15 novembro 2006

Aliança das Civilizações em Istambul

O primeiro-ministro turco, Recep Tayyip Erdoğan, e o seu homólogo espanhol, Jose Luis Rodríguez Zapatero, impulsionadores da iniciativa Aliança das Civilizações conduzida pelas Nações Unidas, participaram na segunda-feira, em Istambul, no 4.º encontro do Grupo Internacional de Alto Nível, que lidera a iniciativa, para apresentarem o plano de acção que visa aproximar o mundo islâmico e o ocidente.

Durante uma cerimónia, Erdoğan e Zapatero apresentaram o plano de acção ao secretário-geral das Nações Unidas, Kofi Annan, também presente no encontro.
Erdoğan e Zapatero irão encontrar-se com Annan uma vez mais em Nova Iorque no final deste ano. O plano de acção contém recomendações e esquemas para aumentar e desenvolver a aliança entre o mundo árabe e o mundo ocidental.
O Grupo Internacional de Alto Nível, responsável pela iniciativa conduzida pelas Nações Unidas, finalizou o plano de acção numa reunião em Istambul durante o passado fim-de-semana.
A iniciativa, proposta por Zapatero na 59.ª Assembleia Geral das Nações Unidas em 2004, e co-patrocionada por Erdoğan, tem como objectivo produzir, no final de 2006, recomendações para serem adoptadas pelos Estados-membros das Nações Unidas.
Annan disse que a iniciativa pretende responder à necessidade de um esforço e compromisso da comunidade internacional no plano institucional e civil, para anular divisões e superar preconceitos, assim como conceitos e percepções erróneos e polarizações, que ameaçam potencialmente a paz mundial. A Aliança das Civilizações terá como objectivo fomentar tratados resultantes da percepção da hostilidade que fomenta a violência, e incrementar a cooperação através da congregação de esforços no sentido de ultrapassar essas divisões.
A iniciativa resultou de um consenso entre nações, culturas e religiões, de que todas as sociedades são independentes, embora interligadas no seu desenvolvimento e segurança e no seu bem estar ambiental, económico e financeiro.
Para conduzir esta iniciativa, o secretário-geral das Nações Unidas, reuniu-se em Setembro de 2005 com os co-patrocinadores da iniciativa e com vários especialistas em relações inter-civilizacionais e inter-culturais que integram um Grupo Internacional de Alto Nível composto por 20 figuras eminentes da vida política, académicos, sociedade civil e líderes religiosos, originários de várias regiões e civilizações.
O Grupo de Alto Nível é co-presidido por Federico Mayor, antigo director geral da UNESCO e presidente da Fundação Cultura da Paz sediada em Madrid, e Mehmet Aydın, ministro turco do Estado. O grupo inclui ainda Sheikha Mozah, consorte do Emir do Estado do Qatar e presidente da Fundação do Qatar para o Desenvolvimento da Educação, Ciências e Comunidade; Mohammad Khatami, antigo presidente do Irão; Moustapha Niasse, antigo primeiro-ministro do Senegal; Andre Azoulay, vencedor do Prémio Nobel da Paz; Desmond Tutu, Nobel da Paz, arcebispo da África do Sul e conselheiro especial do rei de Marrocos; Sarajaldeen Ismael, director da Biblioteca de Alexandria no Egipto, e Hubert Vedrine, antigo ministro dos Negócios Estrangeiros francês.
Annan pediu ao Grupo de Alto Nível para fortalecer a compreensão mútua, o respeito e a partilha de valores entre pessoas, culturas e civilizações diferentes; para combater a influência de grupos fomentadores de extremismo e para lutar contra o extremismo e a sua ameaça à paz e estabilidade mundial. Também pediu propostas de medidas direccionadas para a juventude do mundo, de forma a serem incutidos valores de moderação e cooperação e promoção da valorização da diversidade.
A Aliança das Civilizações foi recebida pelos líderes europeus e pelo mundo islâmico como uma alternativa construtiva e positiva à hipótese de Huntington do choque de civilizações.
Em Fevereiro de 2005, a secretária de Estado norte-americana, Condoleezza Rice, disse numa carta ao ministro dos Negócios Estrangeiros espanhol, Miguel Angel Moratinos, que os Estados Unidos pretendem colaborar com a proposta da Aliança das Civilizações, na esperança de que a iniciativa ajude a promover “reformas democráticas, paz, e estabilidade no Próximo Oriente”.
O Secretário Geral da Liga Árabe, Amr Moussa, também elogiou a iniciativa dizendo tratar-se de “um passo muito importante. É mais positivo discutir sobre uma aliança de civilizações do que sobre choque de civilizações.”
Na véspera da Cimeira Euro-Mediterrânea de Barcelona, em Novembro de 2005, o presidente francês, Jacques Chirac, referindo-se à Aliança das Civilizações, disse: “Trata-se de uma prioridade urgente na conjuntura em que vivemos.”
O presidente russo, Vladimir Putin, tem encorajado encontros de líderes religiosos em Moscovo, para combater aquilo a que ele chamou de “esforços para colocar cristãos e muçulmanos uns contra os outros”, e avisou que um potencial choque de civilizações pode ser desastroso.
Erdoğan também disse: “Juntos estamos a plantar a semente para que uma aliança de civilizações cresça no nosso mundo, e isso será uma ajuda para que sementes de centenas de milhar de alianças de civilizações floresçam.”

13 novembro 2006

O governo foi vaiado no funeral de Ecevit


No funeral de Bülent Ecevit, as cerca de 25 000 pessoas que se deslocaram à mesquita Kocatepe e as outras dezenas de milhar que estiveram nas ruas circundantes, demonstraram a sua admiração por Ecevit e criticaram o governo.
Ouviram-se frases como estas: “A Turquia é secular e permanecerá secular” ou “Çankaya [onde se localiza o palácio presidencial] permanecerá secular”, slogans que elogiam a linha política de Ecevit comprometida com o secularismo. Também se ouviu: “Ecevit do Povo”, o slogan com que foi eleito cinco vezes para o cargo de primeiro-ministro durante a sua longa carreira política de quase cinco décadas.
A multidão rapidamente começou a assobiar e a entoar cânticos de protesto pró-seculares quando o primeiro-ministro, Recep Tayyip Erdoğan, o ministro dos Negócios Estrangeiros, Abdullah Gül, e outros ministros do Partido da Justiça e Desenvolvimento (AKP, no governo) chegaram à mesquita Kocatepe por uma entrada secundária, em vez da entrada reservada ao protocolo.
A multidão vaiou Erdoğan ainda mais alto quando este abandonou a mesquita. Vários outros membros do governo, tais como o porta-voz do parlamento, Bülent Arınç, foram alvo de protestos semelhantes.
Desde que subiu ao poder em 2002, Erdoğan aumentou as preocupações seculares, insurgindo-se contra as restrições sobre o uso do véu islâmico em edifícios e escolas públicas e apoiando as escolas religiosas. Tentou também criminalizar o adultério, mas foi forçado a recuar pela União Europeia. Algumas câmaras municipais do partido do governo tentaram adoptar medidas para proibir o consumo de álcool.
O governo de Erdoğan nega ter uma agenda islâmica. Tem mostrado um compromisso com a adesão à União Europeia, promulgando reformas abrangentes que permitiram ao país iniciar as conversações de adesão no ano passado. Mas a administração de Erdoğan tem sofrido duras críticas da União Europeia por julgar jornalistas e escritores devido às leis repressivas que impedem a liberdade de expressão.
Muitos secularistas estão cada vez mais preocupados com a possibilidade de Erdoğan se tornar presidente e substituir o presidente secular Sezer quando este se retirar em Maio. O parlamento, dominado pelos deputados do AKP, irá eleger o novo presidente. Erdoğan terá de desistir do cargo de primeiro-ministro para se tornar presidente, caso tal venha a acontecer.