13 novembro 2006

Uma multidão emocionada disse adeus a Ecevit

Dezenas de milhar de pessoas encheram as ruas de Ancara para a última despedida ao anterior primeiro-ministro Bülent Ecevit, muito admirado pela nação turca por uma carreira política de cinco décadas.
Na manhã de Sábado, na primeira de várias cerimónias, o corpo de Ecevit foi transportado do hospital militar onde faleceu no passado fim-de-semana, para a sede do Partido da Esquerda Democrática (DSP), que liderou até 2002.
Depois da cerimónia na sede do partido DSP, foi conduzido para o parlamento, para onde Ecevit foi eleito em 1957 como membro do Partido Republicano do Povo (CHP), o partido de Mustafa Kemal Atatürk, fundador da moderna república da Turquia. No parlamento, a guarda de honra colocou o corpo de Ecevit no carro fúnebre, na presença de oficiais de topo e de líderes políticos e dignatários estrangeiros, que assistiram a um funeral de Estado no parlamento.
Marcaram presença, o anterior presidente Süleyman Demirel, principal rival de Ecevit durante quatro décadas, e Kenan Evren, antigo general que tomou o poder com o golpe de Estado de 1980 e colocou Ecevit e Demirel na prisão.
O anterior e actual presidentes da república turca do Chipre, respectivamente Rauf Denktaş e Mehmet Ali Talat, compareceram em memória da intervenção turca em Chipre, em 1974, que Ecevit ordenou em resposta a um golpe perpetrado por Atenas e pelos Greco-cipriotas ultranacionalistas com o objectivo de unir a ilha à Grécia.
Depois, o corpo de Ecevit seguiu para a mesquita Kocatepe, a maior de Ancara, onde era aguardado por uma multidão de cerca de 25 000 pessoas, no pátio da mesquita, e por dezenas de milhar nas ruas circundantes. Entre muitas outras pessoas, esteve presente a família do juiz do Conselho de Estado, Yücel Özbilgin, assassinado por um activista islâmico que se insurgiu contra a decisão do Supremo Tribunal de banir o véu islâmico nos espaços públicos. Ecevit foi visto pela última vez no funeral de Özbilgin, na mesquita de Kocatepe a 18 de Maio. Mais tarde, nesse mesmo dia, sofreu o derrame cerebral que o fez perder a vida a 5 de Novembro.
Mineiros de Zonguldak, o seu eleitorado durante muitos anos, estiveram presentes para lembrar o seu cargo como o ministro do Trabalho, responsável pela promulgação das primeiras leis no país que permitiram o início de negociações colectivas e o direito à greve.
Pessoas anónimas, não necessariamente militantes politicos, reuniram-se para prestar a sua homenagem a um homem admirado pela sua honestidade.
Para além da representação oficial, a multidão que conseguiu congregar na hora da sua morte, reflecte também as suas muitas facetas. Escritores e artistas estiveram também entre aqueles que quiseram prestar homenagem ao seu passado como poeta, com muitos dos seus poemas transformados em letras de canções.
Ecevit é visto como o pai da social democracia na Turquia e como um homem justo, extremamente cortês e trabalhador incansável, que viveu durante anos num modesto apartamento nos subúrbios de Ancara com a sua mulher Rahşan, seu amor desde a infância e a sua companheira de sempre também na vida política.
Da mesquita de Kocatepe, o cortejo fúnebre seguiu para o cemitério de Estado, uma caminhada lenta ao longo de oito quilómetros, que a sua mulher, com 83 anos, fez questão de fazer a pé. Ao longo dessa caminhada, toda a multidão concentrada nas ruas pode despedir-se de Ecevit. O carro fúnebre ficou carregado de flores que foram sendo atiradas ao longo desse percurso final.

11 novembro 2006

A Turquia recordou Atatürk











No 68.º aniversário da sua morte, o fundador da Turquia e todo o seu legado foram recordados em toda a nação turca.
A primeira cerimónia decorreu no mausoléu de Atatürk, Anıtkabir, com dignatários liderados pelo presidente da república, Ahmet Necdet Sezer, a prestarem a sua homenagem no túmulo de Atatürk.
Às 9.05 horas, hora da morte de Atatürk, durante dois minutos, ecoaram por todo o país sons de buzinas de automóveis e sirenes de barcos e fábricas, acompanhados pela paragem dos transeuntes nas ruas e pelo silêncio no interior das instituições e edifícios. As bandeiras foram colocadas a meia haste desde as 9.05 horas até ao pôr do sol.
Sezer, juntamente com o porta-voz do parlamento, Bülent Arınç, o primeiro-ministro Recep Tayyip Erdoğan, o general das Forças Armadas Yaşar Büyükanıt, o líder do Partido Republicano do Povo (CHP), Deniz Baykal, representantes de outros partidos políticos, ministros e outros oficiais de topo, permaneceram em silêncio em frente do túmulo de Atatürk, antes de aí depositarem uma coroa de flores.
Depois da cerimónia em Anıtkabir, Sezer proferiu um discurso num encontro que decorreu no Centro Cultural Atatürk, no Instituto de Línguas e História, dizendo: “Tudo se baseia no secularismo. O nosso grande líder sabia que o secularismo era a chave para a civilização e para o esclarecimento. Resumindo, secularismo significa ser humano.” Também criticou o conceito de globalização, argumentando que os países imperialistas estão a usar a globalização para atingirem os seus objectivos em termos económicos. Citou Atatürk: “Existem pessoas que pensam que tudo o que se pode aprender, todos os conselhos e todos os objectivos devem vir da Europa. Contudo, como é que se pode desenvolver a independência com o conselho de estrangeiros? Isso nunca aconteceu na história.”
O primeiro-ministro Erdoğan, discursando no mesmo encontro, disse: “As principais doutrinas da república devem ser mantidas diariamente com argumentos políticos. Precisamos de usá-los, não para dividir, mas para unir o país. Essa é a única forma de criar paz social."
Decorreu também uma cerimónia no Palácio Dolmabahçe, em Istambul, onde Atatürk morreu a 10 de Novembro de 1938. Nessa cerimónia, a sua filha adoptiva, Ülkü Adatepe disse: “Eu costumava caminhar com ele nestes corredores. Atatürk vai viver para sempre. Eu nunca pensei que ele tivesse morrido. Ele ainda vive.”
Ao longo do dia acumularam-se filas de pessoas que queriam visitar o Palácio Dolmabahçe e Anıtkabir.
Atatürk nasceu em 1881 em Tessalónica, que actualmente faz parte do território grego. Ele é recordado, admirado e aclamado por ter fundado a república da Turquia, e pelas reformas modernas que instituiu no país. Contudo, como acontece com todos os líderes, essa admiração não é consensual. No entanto, o que passa para o cidadão comum que visita a Turquia é a profunda veneração que o país retribui a este homem.
Atatürk morreu a 10 de Novembro de 1938, rendendo-se à doença no fígado de que padecia. O seu corpo foi levado inicialmente para o Museu Etnográfico de Ancara, em 21 de Novembro de 1938. Quando o seu mausoléu em Anıtkabir foi concluído, foi trasladado para esse local com uma grande cerimónia, a 10 de Novembro de 1953.

06 novembro 2006

Bülent Ecevit: Uma lenda da política turca


Bülent Ecevit (1925-2006) nasceu em Istambul. O seu pai, Ahmet Fahri Ecevit nasceu em Kastamonu (norte da Turquia) e foi professor de medicina forense na universidade de Ancara. Entre 1943 e 1950, Ahmet Fahri iniciou a sua vida política como deputado do CHP (Partido Republicano do Povo) por Kastamonu. A sua mãe, Fatma Nazlı, nasceu em Istambul e era pintora.
Em 1944, Ecevit terminou o liceu no Robert College de Istambul e começou a trabalhar como tradutor na Direcção Geral de Imprensa. Foi para os Estados Unidos em meados dos anos 50 com uma bolsa de estudo, e trabalhou para dois jornais na Carolina do Norte.
Ecevit foi eleito para o parlamento turco em 1957, como deputado do Partido Republicano do Povo (CHP) pela província de Zonguldak. Em 1974, sucedeu a Ismet Inönü como líder do Partido Republicano do Povo (CHP) em coligação com o Partido da Salvação Nacional (MSP) de
Necmettin Erbakan. Foi eleito primeiro-ministro, e o feito mais notório do seu governo foi ter ordenado uma intervenção militar a 20 de Julho de 1974, para prevenir um golpe de Estado das forças gregas em Chipre, dividindo a ilha e preparando o cenário para a fundação da república turca do norte do Chipre (um Estado de facto que só é reconhecido oficialmente pela Turquia).
Bülent Ecevit revelou que soube pela primeira vez da existência do Gladio, um exército secreto da NATO, em 1974, e suspeitou da existência de uma “contra-guerrilha”, o ramo turco do Gladio. Essa "contra-guerrilha" terá sido responsável pelo massacre de 1 de Maio de 1977 na praça Taksim em Istambul, durante o qual franco-atiradores dispararam contra 500 000 cidadãos presentes num comício de protesto, matando 38 e ferindo centenas.
Depois do golpe militar de 12 de Setembro de 1980, protagonizado pelo general Kenan Evren, Ecevit foi preso e suspenso da vida política activa para sempre. Um referendo em 1987 ilibou-o e tornou-se o presidente do Partido da Esquerda Democrática (DSP) em 1989, herdando o posto da sua mulher, Rahşan Ecevit. O seu partido falhou a entrada na assembleia nacional nas várias eleições que se seguiram, mas venceu finalmente a barreira eleitoral nas eleições nacionais de 1995. Foi vice-primeiro-ministro durante o último governo de Mesut Yılmaz e depois foi por pouco tempo presidente do governo provisório na corrida às eleições gerais de 1999. Nessas eleições, o partido de Ecevit ganhou o maior número de assentos parlamentares, e Ecevit tornou-se primeiro-ministro em coligação com o Partido da Terra Mãe (Ana Vatan Partisi) de Mesut Yilmaz, e o Partido do Movimento Nacionalista (MHP) de Devlet Bahçeli. O governo de Ecevit levou a cabo várias reformas, com o objectivo de estabilizar a economia turca durante a preparação para as negociações de adesão à União Europeia. Contudo, a agonia económica despoletada pelas suas reformas, causou atritos dentro da coligação e partido, e forçou novas eleições em 2002. Ecevit, nessa altura visivelmente fragilizado, não conseguiu levar o seu partido para a assembleia nacional. Reformou-se da vida política activa em 2004.

Bülent Ecevit dedicou os últimos 49 anos da sua vida de 81 anos à política, mas foi também um poeta e escritor. Estudou Sânscrito, Bengali e Inglês e traduziu para Turco obras de Rabindranath Tagore, T. S. Eliot, e Bernard Lewis. Estudou no American Robert College, o mais prestigiado liceu de Istambul, e triunfou na via literária apesar de não possuir nenhuma licenciatura, facto que fez com que nunca se pudesse candidatar a presidente da república da Turquia. No entanto, frequentou o curso de direito, que abandonou para ingressar no curso de literatura inglesa na universidade de Ancara, que acabou por nunca concluir.
Sentiu-se mal a 17 de Maio deste ano durante o funeral do juiz Mustafa Özbilgin, assassinado no Conselho de Estado em Ancara. Quem conhecia Ecevit, disse naquele dia que ele tinha decidido ignorar a sua própria doença para ir ao funeral do juiz Özbilgin. O ataque no Conselho de Estado, organismo que sempre protegeu os valores básicos da república, era demasiado importante para ser ignorado.
Foi alvo de tentativas de assassinato em Izmir e nos Estados Unidos, onde balas que lhe eram dirigidas, só não o atingiram por escassos milímetros. Relativamente a Chipre, Ecevit foi quem tomou a decisão histórica e que a fez avançar. Em Março de 1971, abandonou a liderança do Partido Republicano do Povo (CHP) por não querer trabalhar lado a lado com o poder militar que tinha vindo para o poder através de um golpe de Estado. Adoptou uma posição ainda mais importante durante o período do 12 de Setembro de 1980, altura do golpe de Estado na Turquia. Foi o único político que protestou abertamente contra as condições extremamente limitadoras trazidas pela liderança militar no poder, e foi também a única voz intelectual que se levantou. Por essa via, Ecevit produziu a revista "Arayış" para fazer ouvir a sua voz. Foi preso duas vezes pelo que escreveu na revista e por declarações que nunca esconderam o que se estava a passar na Turquia.

Morreu o político, poeta, escritor, tradutor e jornalista Bülent Ecevit


Morreu ontem Bülent Ecevit, o político que foi primeiro-ministro da Turquia em 1974, 1977, 1978-1979 e na anterior legislatura (1999-2002). Foi também poeta, escritor, jornalista e tradutor.
Ecevit tem estado nos cuidados intensivos do hospital militar Gülhane, em Ancara, desde que sofreu um derrame cerebral a 17 de Maio deste ano. A sua morte, aos 81 anos, foi anunciada ontem à noite pelo seu médico pessoal, que disse aos jornalistas que o sistema respiratório do anterior primeiro-ministro falhou.

04 novembro 2006

Marcha pela república em Ancara


De forma a demonstrarem a sua lealdade e devoção à república, 130 organizações não governamentais organizaram hoje uma marcha de protesto em Ancara. A marcha, denominada "A marcha do povo pela nossa república", começou às 11 horas no Centro Cultural Atatürk, com milhares de pessoas a caminharem na praça Tandoğan. Depois de um comício à hora do almoço, o grupo planeia marchar até ao mausoléu onde está Atatürk (Anıtkabir), o fundador da república da Turquia.
O director da organização do evento, Şenal Sarıhan, disse na terça-feira: “Convidamos a marchar todos aqueles que são leais ao secularismo, que querem que os seus filhos cresçam com uma educação nacionalista e secular, que são contra a divisão da nação devido às diferentes etnias e religiões dos seus cidadãos, que são contra a venda das nossas empresas e terras aos interesses estrangeiros e que são contra a corrupção”. Disse ainda que a marcha foi organizada para mostrar que existe uma multidão pronta a defender a grande conquista de Atatürk, a república.
O secretário geral da Associação do Pensamento Kemalista (ADD), Mehmet Kaynak, disse que existe uma necessidade de protestar e uma necessidade de fortalecer a independência do país e da unidade nacional, argumentando que os interesses nacionais foram sendo atropelados em nome da União Europeia e da globalização. “A nossa honra nacional está ameaçada”, disse.

03 novembro 2006

Inundações no sudeste da Turquia mataram pelo menos 34 pessoas


O número de mortos em resultado das inundações que atingiram a zona pobre do sudeste da Turquia chegou aos trinta e quatro. Onze pessoas, incluindo sete crianças, morreram na vila de Batman. Há notícias de mais pessoas desaparecidas. Estas são as piores inundações que atingiram a região desde 1937, e muito mais chuva está prevista para a Turquia nos próximos dias.
Uma tromba de água inundou Batman na quarta-feira à noite, quando os rios galgaram as margens, devido a chuvas torrenciais, e invadiram ruas e edificios matando onze pessoas e accionando grandes operações de resgate. O exército juntou-se às equipas de salvamento para ajudar na evacuação de pessoas. As autoridades locais abriram edificios municipais, nomeadamente centros desportivos, para albergar famílias desalojadas pelo desastre. Pelo menos sete feridos receberam tratamento hospitalar. Também em Elaziğ, uma vila a noroeste de Batman, os moradores tiveram de ser evacuados das suas casas. Diyarbakır, a maior cidade da região, foi atingida por inundações na terça-feira à noite, quando a água aumentou a uma velocidade dramática, apanhando milhares de moradores de surpresa. Os habitantes foram resgatados das suas casas por barco ou procederam a trabalhos de limpeza ao mesmo tempo que as águas baixavam. Continuam ainda desaparecidas duas pessoas nesta cidade. Um grupo de pessoas protestaram em repartições governamentais na região de Çınar, atirando pedras e partindo janelas. Dispersaram mais tarde após pedidos de contenção. O jornal Milliyet atribui a grande causa das mortes no sudeste à má qualidade das infra-estruturas locais. As estradas que ligam Batman a Diyarbakır e a outras vilas foram cortadas ao trânsito.
A maior cidade da Turquia, Istambul, localizada 1300 quilómetros a noroeste de Dyarbakır, e as cidades mediterrânicas de Antália e Mersin, também sofreram inundações nos últimos dias.

01 novembro 2006

Advogado vai ser julgado por alegada difamação do primeiro-ministro

O gabinete da Procuradoria de Ancara apresentou uma queixa contra o advogado Ömer Lütfü Avşar, na terça-feira, acusando-o de difamação do primeiro-ministro Recep Tayyip Erdoğan.
Avşar acusou o primeiro-ministro de ter incitado ao assassinato que ocorreu no Conselho de Estado em Maio deste ano, apresentando uma queixa contra Erdoğan no gabinete da Procuradoria para que este seja julgado. Como resultado, o advogado enfrenta agora acusações que podem culminar numa sentença de um a quatro anos de prisão.
A tentativa de assassinato à mão armada de cinco juízes, um dos quais foi morto, a 17 de Maio deste ano, causou uma grande tensão em todo o país. O homem armado alvejou os juízes, alegadamente devido à sua decisão de proibição do uso do véu islâmico.
A atitude do governo, cuja posição é a favor do uso do véu islâmico, fez com que lhe fossem dirigidas muitas críticas.
O julgamento terá início em breve no 17.º tribunal de Ancara.

28 outubro 2006

Durão Barroso diz que as reformas na Turquia estão a avançar muito devagar


O presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso, declarou ao jornal italiano ”Corriere della Serra” que antevê um caminho lento e difícil para a total adesão da Turquia à União Europeia.
Barroso disse a um jornalista italiano: "Lamento dizê-lo, mas as coisas não estão a correr bem para a Turquia. Nós estamos a atravessar um período muito crítico com a Turquia. As reformas na Turquia estão a processar-se muito devagar, e eu ainda não vejo os progressos que esperava ver. Nós esperamos que a Finlândia, que preside neste momento à União Europeia, seja capaz de evitar a paragem das negociações de adesão. Mas falando abertamente, estou preocupado."
Barroso falou sobre o debate crescente nos países membros da União Europeia sobre os imigrantes muçulmanos e como se estão a assimilar à sociedade em seu redor, dizendo: "Vou repetir novamente: não devemos olhar para os muçulmanos europeus como se eles fossem de Marte. Mas aqueles que imigram para os nossos países, também devem fazer o possível para se envolverem com as pessoas que os rodeiam."

22 outubro 2006

O martelo foi levado para o parlamento


Um objecto que dominou os debates nos últimos dias, foi o martelo que foi usado para "salvar" o primeiro-ministro.
O trabalhador da construção civil Hasan Alpyılmaz não fazia ideia de que o seu martelo era exactamente o que o primeiro-ministro precisava naquele momento. O vidro da frente do carro foi partido com o seu martelo e o primeiro-ministro foi "salvo".
Para além de todas as questões sobre a competência da equipa de segurança, que fechou o primeiro-ministro dentro do carro, não restam dúvidas da qualidade extraordinária do martelo.
O deputado do Partido da Justiça e Desenvolvimento (AKP) por Bingöl, Feyzi Berdibek, foi ao local das obras na quarta-feira e falou com os trabalhadores sobre o martelo dizendo que o queria comprar mas eles simplesmente ofereceram-lho. Berdibek trouxe o martelo para o parlamento e disse aos seus colegas que o iria guardar para sempre, a não ser que o primeiro-ministro o quisesse para si.

O "debate do martelo"


Está a ser questionada a competência da equipa de segurança do primeiro-ministro Recep Tayyip Erdoğan, depois de ter desmaiado dentro do seu carro e de ter sido fechado acidentalmente no seu interior, após ter sido conduzido ao hospital em virtude de um ataque de hipoglicemia.
O primeiro-ministro Recep Tayyip Erdoğan foi hospitalizado, depois de ter sofrido um ataque de hipoglicemia na terça-feira. Erdoğan seguia para uma reunião no parlamento, quando se sentiu mal e foi conduzido ao hospital Güven pelo seu motorista e guarda-costas. Contudo, Erdoğan foi fechado dentro do carro blindado quando o sistema automático de fecho central foi activado acidentalmente pelos seus guarda-costas que entraram em pânico. Os guardas partiram então a janela traseira com um martelo trazido de umas obras de construção que estavam a decorrer nas imediações. A forma como os guarda-costas lidaram com a indisposição de Erdoğan, levantou discussões relativas à segurança.
O evento terá sido causado por um erro dos guarda-costas? O que teria acontecido se Erdoğan não estivesse a ter um problema de hipoglicemia mas um ataque cardíaco? Como é que os guarda-costas do primeiro-ministro agem como se fossem amadores? Como é que o motorista do primeiro-ministro sai do carro deixando a chave na ignição? Porque é que não existia uma chave suplente? Será que o motorista não tem uma licença de condução para veículos blindados? Será que os guarda-costas e o motorista do primeiro-ministro podem reagir emocionalmente? Será que o motorista é familiar do primeiro-ministro? Porque é que o sistema de segurança conhecido por “código azul” não foi desactivado? Porque é que não existia uma ambulância totalmente equipada na escolta do primeiro-ministro? A escolta do primeiro-ministro, que estava muito perto do edifício do parlamento quando o incidente aconteceu, podia ter parado no centro de saúde do parlamento, localizado a cerca de 150 metros. Será que o motorista e os guarda-costas não sabiam que existia um centro de primeiros socorros totalmente equipado na área do parlamento? A Turquia tem estado à procura de respostas para estas questões desde terça-feira.
Erdoğan deixou a sua casa na terça-feira de manhã em Subayevleri, uma região de Ancara, para estar presente numa reunião do Partido da Justiça e Desenvolvimento (AKP) agendada para as 11 horas. A sua escolta seguiu para o parlamento e estava perto da entrada, em Çankaya, na avenida Atatürk. Nessa altura, algo se passou dentro do Mercedes blindado onde seguia o primeiro-ministro. Erdoğan estava acompanhado pelo seu assistente e deputado do AKP por Adana, Ömer Çelik. Os dois conversavam, mas o primeiro-ministro deixou de falar quando chegaram a Bakanlıklar (área das instituições do governo). Quando o carro estava prestes a entrar na porta do parlamento em Çankaya, ele disse ao seu motorista Harun Kandemir para abrandar. Nesse momento desmaiou. O condutor fez uma súbita inversão de marcha e dirigiu-se para o Hospital Güven, localizado na Rua Şimşek em Ayrancı. O veículo entrou pela Rua Şimşek em sentido proibido e parou em frente ao Hospital Güven. Çelik saiu do carro para procurar um médico. Ao mesmo tempo, o condutor e o chefe dos guarda-costas Halit Özgül também correram para fora do veículo, mas o Mercedes blindado fechou-se quando as duas portas bateram ao mesmo tempo. Os guarda-costas e o motorista entraram em pânico. Primeiro tentaram forçar as portas. Quando tal não resultou, tentaram partir os vidros usando varas de ferro e sinais de trânsito que estavam em frente do hospital. Quando tal não funcionou, alguns dos guarda-costas verificaram que decorriam obras de construção ao lado do hospital e pediram ajuda. O trabalhador da construção civil Hasan Alpyılmaz, de 28 anos, trouxe um martelo. Passados três minutos, os guarda-costas foram capazes de abrir um buraco e conseguiram abrir a porta. Quando abriram as portas, o primeiro-ministro foi colocado numa maca pelos paramédicos, e foi levado para a sala de emergências. Depois de um tratamento inicial, foi-lhe administrado soro. Foi-lhe diagnosticado diabetes latente depois de alguns testes iniciais. Nove horas depois teve alta. Os médicos recomendaram que evitasse cansar-se, que fizesse exercício e dieta.
O primeiro-ministro chegou ao hospital em dois minutos mas teve de esperar dez minutos em frente do hospital, sendo essa a causa da controvérsia. O incidente é apontado como o “escândalo dos guarda-costas”. Tem sido referido que Erdoğan preferiu escolher pessoas que conhece bem em deterimento do profissionalismo. Alguns disseram que o motorista é sobrinho de Erdoğan, o que se veio a verificar ser falso.

Jornalista condenado por insultar o conselheiro especial do primeiro-ministro

İsmail Necdet Sevinç

İsmail Necdet Sevinç, antigo jornalista do jornal Yeniçağ, foi condenado a três meses e quinze dias de prisão por ter insultado Cüneyd Zapsu, conselheiro especial do primeiro-ministro Recep Tayyip Erdoğan.
Sevinç escreveu num artigo, a 6 de Janeiro de 2003, que Zapsu pertencia a “uma família de separatistas contra o império otomano e a república turca”.
Zapsu apresentou queixa contra Sevinç no departamento da procuradoria da república em Sarıyer. Zapsu reclamou que o jornalista o insultou no artigo publicado em 2003, intitulado “Senhor Cüneyd, o piloto mestre”. A queixa de Zapsu levou a procuradoria a preencher um auto civil contra Sevinç e o editor do jornal Yeniçağ. Sevinç foi declarado culpado por insultar alguém publicamente, de acordo com o artigo 480/4 do código penal turco.
O jornalista não foi autorizado a pagar fiança ou a adiar a sentença porque já tinham sido apresentadas queixas similares contra ele.

20 outubro 2006

THY aposta no turismo de fé para promover a rota Lisboa-Istambul

As linhas aéreas turcas (THY) estão a tentar revitalizar a rota Lisboa-Istambul, criada há um ano e meio, através da promoção do turismo de fé.
"Eu trabalhei em Amesterdão durante dois anos e há dois meses vim para Lisboa. O meu objectivo neste momento, é salvar a rota Lisboa-Istambul”, declarou Metin Koyuncu, representante da THY em Lisboa. Acrescentou que planeia revitalizar a rota, trazendo mais grupos religiosos para Istambul.
Koyuncu afirmou que a THY assinou um acordo com a TAP Air Portugal há três meses, que estipula que os passageiros da TAP que voem para o médio oriente, ásia central e extremo oriente efectuem escala em Istambul, enquanto que os passageiros da THY que voem para o Brasil ou África, farão escala em Lisboa.
“Com voos duas vezes por semana entre Lisboa e Istambul, estão a viajar mais Portugueses para a Turquia em férias. No passado Inverno, os voos da THY de Lisboa para Istambul, tiveram uma taxa de ocupação de 30 a 40%, e este Verão esse valor aumentou para 80% e só 20 % dos passageiros eram Turcos”, disse Koyuncu.
Falando sobre a situação actual da rota Lisboa-Istambul, Koyuncu disse que houve um aumento no número de passageiros. “Nós aumentamos a nossa quota de mercado de 55% para 30%”, disse Koyuncu, acrescentando: “Eu assumo que iremos aumentar as receitas de um millão de dólares do ano passado para dois milhões este ano”. Koyuncu também referiu que dentro de um ou dois anos espera ver o número de passageiros chegar aos cinco milhões. Em dois ou três anos Koyuncu também tem planos para acrescentar mais voos à rota Lisboa-Istambul. “Depois vamos concentrar-nos em promover outras rotas”, referiu Koyuncu. Sublinhando que a THY deseja promover a rota de Lisboa tal como fez com os voos de Madrid e Barcelona, Koyuncu também referiu que a linha Madrid-Istambul actualmente tem um volume de receitas de nove milhões de euros.

15 outubro 2006

Clima de forte tensão entre a França e a Turquia

Clima de forte tensão entre a França e a Turquia

A Turquia reagiu com fúria depois da assembleia nacional francesa ter aprovado na quinta-feira o projecto de lei que criminaliza a negação do alegado genocídio de Arménios, dizendo que essa acção provocou um forte abalo nas relações bilaterais.
“As relações turco-francesas, que têm sido meticulosamente desenvolvidas ao longo dos séculos, foram fortemente perturbadas por iniciativas irresponsáveis de alguns políticos franceses com pouca visão, baseados em alegações infundadas”, disse o ministro turco dos Negócios Estrangeiros, depois dos legisladores, na assembleia nacional de 577 lugares, terem votado 106 a favor e 19 contra a aprovação do controverso projecto de lei. “Com este projecto de lei, a França está infelizmente a perder o seu estatuto privilegiado entre a população turca”, acrescentou.
A reacção turca surgiu apesar de terem sido dadas garantias pelo governo francês de que não apoia o projecto de lei e de que valoriza as relações com a Turquia. “Nós estamos muito entusiasmados com o diálogo com a Turquia, assim como com as fortes relações de amizade e cooperação que nos ligam a esse país”, disse o porta-voz do ministro francês dos Negócios Estrangeiros Jean-Baptiste Mattei. Catherine Colonna, a ministra fancesa responsável pelos Assuntos Europeus, também disse à assembleia nacional que não competia aos parlamentos “escrever a História”, e avisou que a passagem do projecto de lei poderia ser contraproducente.

Mas a tensão tem estado a fervilhar desde 2001, quando o parlamento francês votou para reconhecer as alegações de genocídio arménio. No entanto, depois da votação de quinta-feira, as críticas de Ancara atingiram o auge.
“Este projecto de lei, que ataca a liberdade de expressão de uma forma que não beneficia um regime democrático, causou indignação na nação turca, incluindo os nossos cidadãos arménios com quem temos convivido durante séculos”, disse o ministro dos Negócios Estrangeiros turco na sua declaração. Também referiu que o projecto de lei significa uma violação das normas europeias de liberdade de expressão, e acusou a França de aplicar padrões duplos. “É uma contradição evidente que o parlamento de um país cujos governantes dizem que reescrever a história não compete ao parlamento no que diz respeito a questionarem a sua própria história, faça um julgamento da história de outros países e se veja a si próprio com poderes para impôr sanções penais”, disse. “A credibilidade dos estados depende primeiramente da adopção dos valores que pregam”.
Espera-se que a entrada em vigor deste projecto de lei seja um processo demorado, uma vez que tem de passar antes pelo senado para outra votação, e terá de ser assinado pelo presidente antes de se tornar lei. Os observadores dizem que o governo francês pode demorar até levar o projecto de lei ao senado, e se houverem algumas mudanças no projecto de lei quando o senado proceder à votação, terá de ser sujeito a outra votação na assembleia nacional, onde o último dia de trabalho antes das eleições presidenciais e parlamentares de 2007 deverá ser por volta do final de Fevereiro de 2007.
Os governantes turcos têm prometido repetidas vezes que a sua reacção relativamente à França será contida, apesar de apelos públicos para um boicote total aos produtos franceses. Não será uma surpresa se as companhias francesas forem excluídas da maioria das propostas em numerosas áreas, incluindo a construção da primeira central nuclear turca. As relações políticas também poderão vir a ser reduzidas ao mínimo, possivelmente através da redução da representação em visitas mútuas e mesmo cancelamento de certas visitas.
O porta-voz do Parlamento, Bülent Arınç, disse que a acção da França reflectiu uma “atitude hostil” em relação à Turquia. “É uma decisão vergonhosa. É uma atitude hostil contra a nação turca [...]. É inaceitável.”
Relativamente à comunidade arménia em França, de cerca de 400 000 pessoas, disse ser “deplorável” que uma acção a ameaçar as relações francesas com a Turquia fosse entendida como uma “medida para agradar a um certo grupo étnico”, aludindo às eleições presidenciais francesas do próximo ano. “Aqueles que dizem que houve genocídio e aqueles que dizem que não devem gozar da mesma liberdade”, acrescentou. Em Bruxelas, o ministro do Estado Ali Babacan, que também é o responsável pelas negociações com a UE, disse que não se podia descartar um prejuízo para as empresas francesas. Acrescentou que era irónico que tal acção tivesse partido de um país fundador da UE e campeão da liberdade, e que foi acentuou a importância da liberdade de expressão nas suas negociações com Ancara. “O que aconteceu em França, acreditamos não estar em linha com os valores nucleares da UE”, disse.

A UE critica a votação:

A UE, que tem pressionado a Turquia para desenvolver a questão da liberdade de expressão, também criticou a aprovação do projecto de lei pelo parlamento francês, dizendo que poderá prejudicar o diálogo entre a Turquia e a Arménia. “A entrada em vigor desta lei [...] irá proibir o diálogo que é necessário para a reconciliação com o assunto”, disse a porta-voz da comissão europeia Krisztina Nagy. À questão se o projecto de lei poderia acrescentar mais um degrau para dificultar as negociações de adesão de Ancara, iniciadas há exactamente um ano, disse que o reconhecimento das mortes de 1915 como genocídio nunca foi uma pré-condição para a adesão.
“Não compete à lei escrever história. Os historiadores precisam de um debate”, disse.


Erdoğan Erdoğan: "A França manchou a liberdade de expressão"

O primeiro Ministro Recep Tayyip Erdoğan, atacou na sexta-feira a aprovação por parte do parlamento francês, da controversa lei que faz com que passe a ser um crime negar que Arménios foram objecto de genocídio às mãos do império otomano, classificando a legislação de “um ponto negro na liberdade de expressão, democracia e história”.
“Por um lado, [a França] tenta dar conselhos à Turquia relativamente ao Artigo 301 do Código Penal Turco (TCK) e, por outro lado, bloqueia a liberdade de expressão. Não é possivel entender ou explicar isto”, disse Erdoğan na cerimónia de inauguração da Avenida Turgut Özal, que constitui a ligação principal ao novo aeroporto de Ancara (aeroporto Esenboğa).
Enfrentando a crescente pressão da União Europeia para emendar ou eliminar artigos do seu código penal, que restringem a liberdade de expressão, a Turquia queixou-se de padrões duplos, dizendo que a França, um dos principais membros fundadores, bloqueou a liberdade de expressão com o projecto de lei que legislou na quinta-feira.
Erdoğan, nas suas primeiras declarações depois da aprovação do projecto de lei, disse que aqueles que pressionam a Turquia para melhorar a sua liberdade de espressão, deram um passo atrás nas liberdades. “Deviam primeiro resolver isso e depois bater à nossa porta. Nós nunca vivemos nada tão vergonhoso e nunca deixaremos que tal aconteça”, disse.
Erdoğan pediu à nação para ser moderada na sua resposta, e disse que a Turquia está a estudar medidas de retaliação contra a França. “O volume do comércio externo da Turquia com a França é de 10 biliões de dólares, e equivale a 1,5% do volume total do comércio externo francês. Nós vamos fazer os cálculos adequados e depois tomaremos as medidas necessárias”, disse.
Erdoğan não especificou, mas disse que o governo iria tomar medidas dentro e fora da Turquia. O parlamento francês votou o projecto de lei, apesar dos avisos de empresas francesas de que isso iria ter repercussões nos seus negócios na Turquia, um mercado crescente que importou 4,7 billiões de euros de mercadorias francesas em 2005.
Centenas de empresas francesas como a Renault e Carrefour têm grandes investimentos na Turquia, empregando milhares de trabalhadores turcos.
Esta semana, as associações turcas de consumidores e alguns sindicatos do comércio, apelaram a boicotes aos produtos franceses. A associação turca de consumidores, apelou aos seus membros para começarem a boicotar os produtos franceses, começando na sexta-feira com o grupo Total. “O boicote irá continuar até que a lei do denominado genocídio armenio seja anulada”, disse o presidente da associação, Bülent Deniz.
Em reacções na quinta-feira, o ministro turco dos Negócios Estrangeiros, Abdullah Gül, também disse que a Turquia iria considerar medidas de retaliação a adoptar contra a França. “Ninguém deveria esperar que a Turquia entendesse isto de ânimo leve”, disse. “O Parlamento vai reunir-se na terça-feira com uma agenda especial e não há dúvidas de que tomaremos medidas em todas as áreas”.
Gül irá reunir-se com legisladores sobre o processo que levou à aprovação do projecto de lei do genocídio. Mais tarde, os líderes dos partidos políticos com assento no parlamento reunir-se-ão. Espera-se que o líder do partido da oposição, Partido Republicano do Povo (CHP), Deniz Baykal, e o presidente do partido ANAVATAN, Erkan Mumcu, façam discursos. Uma declaração conjunta a condenar o parlamento francês é aguardada no final da sessão. “Os líderes dos partidos políticos, independentemente de terem ou não assento oparlamentar, irão entregar discursos. Tentaremos elaborar uma decisão parlamentar que critique o parlamento francês e que clarifique o significado da decisão aí tomada”, disse o porta-voz do parlamento, Bülent Arınç.
A comissão parlamentar da UE para a Harmonização, apelou à França na sexta-feira para rejeitar ou retirar o projecto de lei. “A nossa comissão condena esta decisão injusta, e espera que a França apele ao bom senso e corrija este erro”, foi dito em declaração.

Babacan: "Não haverá recuos nas reformas"

O ministro de Estado Ali Babacan, que também é o responsável turco pelas negociações de adesão à UE, disse que o que aconteceu em França não deveria ter impacto no processo de reformas na Turquia. “Nós nunca devemos olhar para os erros como modelo. Não devemos responder a erros com erros”, disse numa conferência de imprensa em Berlim, a sua última paragem na sua viagem pelas capitais da UE depois de Madrid e Bruxelas.
Babacan disse que o governo introduziu reformas para o bem da sua população, não só porque a UE pediu que o fizessem, e prometeu que Ancara irá continuar com as reformas políticas. Admitiu que a acção francesa poderá ter um efeito adverso no olhar dos Turcos em relação à UE, mas disse: “Talvez a Turquia venha a tornar-se um modelo para a Europa com as reformas políticas que está a desenvolver”.

Patriarca Mesrob II: "A França sabotou o diálogo"

O líder espiritual dos Arménios na Turquia, condenou o projecto de lei francês que criminaliza a negação do alegado genocídio arménio, dizendo que prejudicou o já restrito diálogo existente entre a Turquia e a Arménia sobre o assunto em questão.
“Os Franceses, que criaram várias barreiras para bloquear a entrada da Turquia na União Europeia, apagaram agora seriamente o diálogo entre a Turquia e a Arménia, que já era muito reduzido”, revelou o patriarca Mesrob II numa declaração.
A Turquia, protestando contra a ocupação arménia do território azeri de Nagorno-Karabakh e contra os esforços da diáspora arménia para ganhar o reconhecimento internacional do alegado genocídio, fechou a porta de embarque à Arménia, e não tem nenhuma relação diplomática com Yerevan.
Mesrob II disse que o projecto de lei, que prevê uma pena de até um ano de prisão e 45 000 euros de multa para aqueles que negarem o alegado genocídio, irá fortalecer os grupos ultranacionalistas e racistas tanto na sociedade turca como arménia.
“Eu considero esta medida anti-democrática, uma vez que restringe a liberdade de expressão dos indivíduos”, acrescentou.

Preocupações com a segurança

O patriarca também encorajou a uma “maior sensibilidade” relativamente à postura da comunicação social relativamente aos Arménios na Turquia, enfatizando que “eles nem são Arménios da diáspora nem cidadãos franceses”, e expressou preocupação com a segurança após a adopção da lei.
“Nós, como Arménios turcos, sentimos uma séria pressão sobre nós com esta lei”, disse, acrescentando que o patriarcado pediu ao governador de Istambul para tomar medidas relativamente à segurança das igrejas e escolas arménias.

13 outubro 2006

Orhan Pamuk recebeu o Prémio Nobel da Literatura

Orhan Pamuk
O escritor Orhan Pamuk, autor de "O Meu Nome é Vermelho", "Neve" e de meia dúzia de outros romances, ganhou ontem o Prémio Nobel da Literatura "pelo conjunto do seu trabalho, que analisa o cruzamento das culturas muçulmanas e ocidentais."
A academia sueca disse que Pamuk, "na busca da alma melancólica da sua cidade natal [Istambul], descobriu novos símbolos para o confronto e entrelaçar de culturas."
O escritor de 54 anos, para além de ser o escritor turco mais conhecido no estrangeiro, é também um rebelde político, cujas opiniões sobre a história do seu país, alertaram a comunidade internacional para a questão da liberdade de expressão no seu país.

Orhan Pamuk
"No seu país natal, Pamuk tem reputação de comentador social, mesmo apesar de se considerar principalmente um escritor de ficção sem agenda política", referiu o júri do Nobel.
As aspirações antigas da Turquia de se tornar europeia, caracterizadas por confrontos entre o islamismo e o secularismo, e entre a tradição e a modernidade, e o impacto doloroso da ocidentalização agressiva depois do colapso do império otomano, permeiam a escrita de Pamuk.
Pamuk foi o primeiro autor no mundo islâmico a condenar publicamente a fatwa (sentença de morte) em 1989 contra Salman Rushdie, e esteve ao lado do seu colega turco Yaşar Kemal quando este mais tarde foi a julgamento em 1995.

Orhan Pamuk
Ele próprio teve de enfrentar um processo judicial depois de ter declarado a um jornal suiço que 30 mil curdos e um milhão de arménios tinham sido mortos na Turquia. As queixas contra ele desencadearam protestos internacionais e foram retiradas.
Pamuk é o primeiro Turco a ganhar o prestigiante prémio, e existiam rumores de que era considerado o favorito.
Fumador compulsivo, a maior parte das vezes afastado dos olhares públicos, escreve durante muitas horas num apartamento de Istambul com vista para a ponte sobre o Bósforo que liga a Europa à Ásia.

Nasceu em 1952 numa família próspera e secular, decidido a tornar-se pintor durante a juventude. Estudou arquitectura na universidade técnica de Istambul, mas mais tarde voltou-se para a escrita, estudando jornalismo em Istambul.
Publicou o seu primeiro romance premiado "O Senhor Cevdet e os seus filhos" em 1982, uma crónica familiar onde descreve a transferência de uma família de um ambiente tradicional otomano para um estilo de vida mais ocidental.
O seu segundo romance, "A Casa do Silêncio" foi publicado na Turquia em 1983, mas foi o seu terceiro livro, "A Cidadela Branca", publicado dois anos mais tarde, que lhe deu reputação internacional. Estruturado como um romance histórico desenvolvido na cidade de Istambul do século XVII, "o seu conteúdo é primordialmente uma história sobre como o nosso ego se constrói em histórias e ficções de diversos tipos. A personalidade é mostrada como uma construção variável", revelou a academia sueca.


Em 2000, com o romance "O Meu Nome é Vermelho" - uma história de amor, assassínio misterioso e discussão sobre o papel do individualismo na arte - Pamuk explora a relação entre o oriente e ocidente, descrevendo a diferente relação de um artista com o seu trabalho em cada cultura.
O seu último livro, "Neve" foi aclamado pela crítica. A história tem lugar em Kars, uma vila fronteiriça, outrora uma cidade na fronteira entre o império otomano e o império russo.


"O romance torna-se uma história de amor e de criatividade poética, como se inteligentemente descrevesse os conflitos políticos e religiosos que caracterizam a sociedade turca dos nossos dias", comentou ainda a academia.
Pamuk receberá o Prémio Nobel no valor de 1,37 milhões de dólares e também uma medalha de ouro e um diploma, das mãos do rei sueco Carl XVI Gustaf numa cerimónia formal em Estocolmo no dia 10 de Dezembro, o aniversário da morte de Alfred Nobel, o fundador dos prémios Nobel em 1896. No ano passado a honra coube ao dramaturgo britânico Harold Pinter.
O prémio da literatura foi o quinto de seis prémios Nobel a serem entregues este mês, com os prémios da Medicina, Física, Química e Economia a irem para os Estados Unidos. O prémio Nobel da Paz foi atribuído hoje a Muhammad Yunus do Bangladesh.
Pamuk estava em Nova Iorque, onde dá aulas na Universidade de Columbia como professor visitante, quando o prémio foi anunciado.


Numa entrevista ao canal CNN-Türk no ano passado, Pamuk disse que as cerimónias de entrega de prémios e as feiras do livro fizeram com que não terminasse um romance que começou há três anos atrás. O livro chama-se "O Museu da Inocência", desenrola-se na alta sociedade de Istambul e é sobre a paixão de um homem por uma mulher. "Escrevemos o romance político, agora escrevemos a história de amor", disse. Revelou também que espera terminá-lo no final deste ano.

Pamuk: "Este Nobel é para toda a Turquia, os Turcos e a língua turca"

Numa conferência de imprensa ontem, em Nova Iorque, onde está actualmente como professor visitante na Universidade de Columbia, Orhan Pamuk disse aos jornalistas que o Prémio Nobel da Literatura não foi só atribuído a ele, mas a toda a Turquia, cultura turca e língua turca. Pamuk disse: "Hoje só gostaria de celebrar esta boa notícia. Não há nada mais que eu queira dizer ou comentar".
Pamuk disse que tinha recebido de manhã a notícia através de um telefonema da academia sueca. Explicou : "O presidente da Real Academia Sueca telefonou-me e perguntou-me se eu aceitaria o prémio. Eu disse que sim."
Pamuk disse aos jornalistas esperar que o prémio permitia desenvolver o perfil da literatura turca no mundo, e acrescentou: "Eu penso que este prémio vai fazer com que o mundo reavalie a cultura turca como uma cultura de paz e como uma mistura de culturas de oriente e ocidente. Os meus livros são a prova de que de facto a Turquia faz parte tanto do oriente como do ocidente."
Pamuk não aceitou responder a nenhumas questões sobre o controverso código penal turco, nem sobre as suas anteriores declarações sobre o "genocídio" arménio e sobre confrontos culturais.


Turquia exaltada e dividida sobre a atribuição do Nobel

Se por um lado houve uma grande exaltação na Turquia por um Turco ter recebido um prémio Nobel pela primeira vez, por outro lado, a conquista de Orhan Pamuk foi manchada por declarações de que o prémio foi um resultado directo da controvérsia em seu redor.
Pamuk, que em 1998 rejeitou o louvor do Estado turco de "Artista do Estado", foi julgado em tribunal no início deste ano, por declarações controversas que desafiaram a versão oficial dos massacres de Arménios que a Turquia diz não se tratar de um genocídio.
O caso, no qual se arriscou a uma pena de até três anos de prisão, foi encerrado em Janeiro deste ano, depois de uma única audição, perturbada por protestantes de extrema-direita que atacaram e vaiaram o autor. O julgamento foi precedido de ameaças de morte, e um governador de província ordenou a destruição dos livros de Pamuk – um movimento que o governo cancelou de imediato, receoso de que as suas credenciais democráticas fossem impugnadas aos olhos da União Europeia.

Orhan Pamuk
Alguns oponentes até alegaram que a intenção de Pamuk se trataria de um movimento calculado para reforçar a sua fama internacional e trazer o prémio Nobel para as suas mãos.
Foi ironicamente o presidente francês Jacques Chirac que se manifestou feliz por Pamuk ter recebido o prémio pela sua escrita “inteligente, forte e liberal", mesmo antes do seu homólogo turco, Ahmet Necdet Sezer, ter feito qualquer comentário sobre o assunto.
Na Turquia, o vice-secretário de Estado do Ministério da Cultura e Turismo Mustafa İsen, comentou: “Etou muito feliz e congratulo-o" acrescentando, "Só me interessa Pamuk como romancista. As suas outras acções não são do meu interesse. Eu penso que ele é um bom romancista e acredito que ele ganhou este prémio pelos seus romances."

Orhan Pamuk
Ahmet İnsel, um académico proeminente e editor na Iletişim, editora turca de Pamuk, disse que o autor mereceu inteiramente o prémio pelas suas qualidades literárias. "Nós estamos muito felizes. Pamuk é um representante importante do romance moderno no mundo". Acreditamos que ele merece inteiramente o prémio", disse İnsel ao canal de televisão turco NTV. Relativamente à controversia que rodeia o autor, İnsel disse, "se olharmos para a longa história da atribuição dos prémios Nobel da Literatura, constatamos que os autores que ganharam, fizeram declarações políticas importantes sobre o futuro dos seus países e sobre o mundo. Pamuk ganhou o prémio como romancista. Isso é uma honra para a Turquia e para a literatura turca", disse.
Metin Celal, presidente do sindicato de editores turcos, disse que o sucesso de Pamuk irá tornar a literatura turca mais popular. "Este é um dia histórico. Eu acredito que irá desempenhar um importante papel na promoção da Turquia e da literatura turca, porque os escritores de todo o mundo estão agora curiosos sobre a literatura que criou”, disse ao canal de televisão CNN-Türk.

Orhan Pamuk
Buket Uzuner, uma popular autora turca, concordou. "Estou orgulhosa por um dos meus conterrâneos ter ganho o prémio", disse. "É irónico que Pamuk tivesse recebido o prémio no mesmo dia da votação na assembleia nacional francesa. Mas o centro da questão, claro, é que ele é um bom romancista", disse.
O líder do Partido Republicano do Povo (CHP) Deniz Baykal, disse que a Turquia devia de estar orgulhosa da conquista de Pamuk, pelo menos porque ele mostrou a presença da literatura turca no palco internacional, acrescentando, “Esse é o ponto onde temos de nos concentrar hoje”.
Zülfü Livaneli, romancista, compositor, cantor, deputado e amigo de Pamuk, disse que o prémio irá colocar a literatura turca firmemente no mapa mundial. "São notícias muito boas, as de que a literatura turca recebeu um prémio Nobel", disse. "Nós não deveríamos avaliar isso na actual atmosfera política, mas olhar numa perspectiva de longo prazo. Este acontecimento vai mostrar que existe uma coisa que se chama literatura turca", disse.

10 outubro 2006

Paavo Lippopen critica o “projecto de lei do genocídio”

Paavo Lippopen critica o “projecto de lei do genocídio”

Um representante do Partido Socialista Europeu (PES), criticou ontem em Ancara o “projecto de lei do genocídio arménio”, que será votado dentro de dois dias no parlamento francês.
O representante finlandês do PES, Paavo Lippopen, encontrou-se ontem com o primeiro-ministro turco, Recep Tayyip Erdoğan, e afirmou: "não achamos certos os esforços da França.”
Erdoğan também aproveitou a oportunidade para criticar uma vez mais a proposta francesa, frisando, "nós abrimos os nossos arquivos. Gostávamos que outros países envolvidos tivessem feito o mesmo. Apesar de todos os nossos bons esforços e intenções relativamente a este assunto, não vimos uma resposta apropriada." Erdoğan também classificou de erro, o facto de um terceiro país entrar numa disputa entre a Turquia e a Arménia. Acrescentou que iniciativas como o projecto de lei relativo ao "genocídio" arménio em França, só acrescentam mais dificuldade ao problema no seu todo.

A UE e a votação da França no projecto de lei de “negação do genocídio”

A UE e a votação da França no projecto de lei de “negação do genocídio”


Com o parlamento francês a preparar-se para a votação de 12 de Outubro sobre o denominado “projecto de lei da negação do genocídio arménio”, levantam-se vozes dentro da União Europeia. Olli Rehn, o comissário europeu para o alargamento, dirigiu avisos severos ao parlamento francês sobre uma lei que, a ser aprovada, condena quem negar publicamente o genocídio arménio.
Esta semana, através de uma declaração escrita, Rehn apelou aos parlamentares franceses para “assumirem responsabilidades,” e referiu que uma lei contra a negação de genocídio iria, "mais do que incrementar o diálogo entre a Turquia e a UE, afectar negativamente esse diálogo."
Entre os pontos que Rehn ressaltou nas suas declarações escritas, constava a referência a que a criação de tal lei iria "deteriorar passos adoptados para a liberdade de expressão na Turquia." Rehn disse: "nós queremos um pouco mais de liberdade de expressão na Turquia, mas a França, com as suas próprias leis, está a limitar essa liberdade em França."

Durão Barroso também avisa a França<br />Durão Barroso também avisa a França

O presidente da comissão europeia, Durão Barroso, disse ontem em Bruxelas que pensa que não devem de ser apresentados à Turquia novos critérios e condições.